Por que o acordo energético da UE com os EUA ainda não foi cumprido: a conta de 750 mil milhões de euros não fecha

A União Europeia comprometeu-se, para surpresa de muitos, a gastar nos próximos três anos 750 mil milhões de dólares (cerca de 720 mil milhões de euros) em matérias-primas energéticas americanas. Contudo, o balanço até agora mostra: o objetivo ambicioso já falha à partida na realidade.

Os números dizem uma linguagem diferente

Entre setembro e dezembro do ano passado, a UE gastou até sete por cento menos em importações de petróleo e gás dos EUA do que no mesmo período do ano anterior – apesar do aumento das quantidades. A razão é evidente: os preços dos combustíveis energéticos americanos caíram. Com um total de 29,6 mil milhões de dólares, o balanço trimestral ficou claramente abaixo das expectativas.

Para o ano inteiro de 2025, os gastos totais da UE situam-se apenas nos 73,7 mil milhões de dólares. Isso nem chega a um terço dos 250 mil milhões de dólares necessários anualmente para atingir a meta de 750 mil milhões de euros até 2028. Gillian Boccara, Diretora Sénior da Kpler, uma empresa de consultoria em fornecimentos energéticos, resumiu de forma concisa: “A conta simplesmente não fecha.”

Infraestruturas e mercados não estão preparados

Um fator decisivo é frequentemente ignorado: mesmo que a UE substituísse cada molécula de gás russo por gás natural liquefeito (GNL) americano, isso aumentaria os valores de importação anuais apenas para cerca de 29 mil milhões de dólares – o que corresponde a apenas 23 por cento do volume exigido.

Os analistas de mercado da Argus Media revelaram uma verdade desconfortável: para atingir o objetivo, os preços do gás teriam que subir até 2028 para 37,3 dólares por milhão de BTU. Isso é o quadruplo dos preços futuros atuais, de cerca de 8,2 dólares. Para comparação: esses níveis de preço foram atingidos pela última vez em dezembro de 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia desencadeou uma crise energética massiva.

Para além disso, há a realidade física: a UE teria que expandir a sua capacidade de importação em mais de 50 por cento. Os EUA teriam que mais do que duplicar a sua infraestrutura de exportação. Novos terminais de regaseificação, tanques de armazenamento e gasodutos – nada disso pode ser realizado a curto prazo.

O que está realmente por trás?

Analistas suspeitam que todo o acordo tem menos a ver com obrigações energéticas reais e mais com um instrumento diplomático – possivelmente uma tática de atraso, até que a situação geopolítica se normalize novamente. O mercado parece partilhar essa desconfiança: à medida que os EUA, Catar e Canadá expandem a sua produção, espera-se uma queda nos preços, o que reduz ainda mais a procura.

A Comissão Europeia, por sua vez, afirma que nos primeiros onze meses de 2025 já gastou 200 mil milhões de euros (236 mil milhões de dólares) em matérias-primas energéticas americanas e que foram assinados novos contratos de GNL a longo prazo. No entanto, permanece incerto quantos desses pedidos futuros já estão incluídos nesses números.

A mensagem é clara: a promessa de 750 mil milhões de dólares não será cumprida sob as condições atuais. Trata-se menos de uma estratégia energética real e mais de uma promessa política com futuro incerto.

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