Quando, a 31 de outubro de 2008, uma pessoa desconhecida publicou um documento de nove páginas intitulado «Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System», poucos poderiam prever que este evento daria início a uma revolução financeira global. O autor, conhecido como Satoshi Nakamoto, apresentou uma solução para o problema do duplo gasto — o ponto fraco de todas as tentativas anteriores de criar uma moeda digital. Mas ainda mais intrigante é o próprio Nakamoto: a sua verdadeira identidade, os seus motivos e razões para ter preferido permanecer na sombra da sua própria criação.
A personalidade na white paper
De acordo com o perfil na plataforma P2P Foundation, Satoshi Nakamoto nasceu a 5 de abril de 1975. No entanto, uma investigação criptográfica e linguística sugere que essa data é mais simbólica do que real. 5 de abril é o dia em que, em 1933, o presidente Franklin Roosevelt assinou o Executive Order 6102, declarando ilegal a posse de ouro para os americanos. O ano de 1975 remete ao período em que essa restrição foi revogada. Essa escolha de data revela a ideologia de Nakamoto: o Bitcoin é posicionado como um equivalente digital do ouro, um armazenamento de valor fora do controlo estatal.
A análise linguística dos textos de Nakamoto revelou um inglês impecável com ortografia britânica de palavras como (colour, optimise), o que contradiz a sua alegada origem japonesa. A análise do seu padrão de atividade mostrou que ele raramente aparecia entre as 5h e as 11h da manhã, horário médio de Greenwich, indicando residência nos EUA ou no Reino Unido. A sua experiência precoce em programação é evidente no código — o uso da notação Hungarian( popularizada pela Microsoft no final dos anos 1980) e outras características estilísticas sugerem um desenvolvedor com décadas de experiência.
A arquitetura da revolução
A 3 de janeiro de 2009, Nakamoto criou o primeiro bloco da blockchain — o chamado genesis block. Nele foi encriptada uma frase do jornal britânico The Times: «The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks». Não foi apenas uma marca temporal. Foi uma declaração de intenção: criar uma alternativa ao sistema bancário tradicional, que na altura enfrentava uma crise profunda.
O Bitcoin v0.1 foi lançado no SourceForge, e Nakamoto começou a trabalhar com os primeiros participantes da rede, incluindo Hal Finney ( criptógrafo, que recebeu a primeira transação de Bitcoin), e Gavin Andresen. Até meados de 2010, Nakamoto começou a afastar-se gradualmente do projeto, delegando responsabilidades a outros desenvolvedores. A sua última comunicação confirmada data de abril de 2011, quando enviou uma carta a Andresen: «É uma pena que continues a falar de mim como uma figura misteriosa de sombras, a imprensa simplesmente transforma isso numa moeda pirata». Logo após, Nakamoto desapareceu completamente.
O estado que nunca foi gasto
A análise dos primeiros blocos da blockchain permitiu aos investigadores determinar que Nakamoto minerou aproximadamente 750.000 a 1.100.000 bitcoins no primeiro ano de existência da rede. Com o valor atual do Bitcoin por volta de $85 000 (abril de 2025), isso equivale a um património estimado entre $63,8 e $93,5 mil milhões — quase como a fortuna pessoal de Elon Musk. Poderia Nakamoto ser um dos vinte indivíduos mais ricos do planeta.
Mas o que realmente impressiona é que nenhum desses bitcoins foi alguma vez gasto. As carteiras de Nakamoto permanecem inalteradas desde o seu desaparecimento em 2011. O investigador de segurança Sergio Demian Lerner identificou um padrão nos primeiros blocos, conhecido como «padrão Patoshi», que permitiu aos peritos determinar com confiança quais os blocos minerados por Nakamoto. Curiosamente, Nakamoto reduziu conscientemente a sua atividade de mineração ao longo do tempo, dando assim oportunidade a outros de adquirirem bitcoins.
Existem três teorias principais sobre as razões para esse estado de inatividade. A primeira: Nakamoto perdeu o acesso às chaves privadas. A segunda: ele morreu. A terceira: deixou intencionalmente essa riqueza à disposição do ecossistema do Bitcoin, seguindo o princípio de que a sua criação deve evoluir sem influência centralizada. Alguns analistas sugerem que qualquer movimento dessas moedas revelaria a identidade de Nakamoto através de procedimentos KYC em exchanges ou na blockchain forensics.
Em busca de Nakamoto: teorias e candidatos
Apesar de várias investigações de jornalistas e criptógrafos, a identidade de Satoshi Nakamoto permanece evasiva. No entanto, destacam-se alguns candidatos sérios.
Hal Finney (1956–2014) foi um criptógrafo e cypherpunk com conhecimentos profundos em criptografia. Morava perto de um possível portador do nome Nakamoto em Tempel City, Califórnia. Análises estilométricas revelaram semelhanças na escrita, mas Finney, até a sua morte por ALS em 2014, negou ser Nakamoto.
Nick Szabo desenvolveu a concepção do Bit Gold em 1998 — um predecessor direto do Bitcoin. O seu entendimento de teoria monetária, criptografia e contratos inteligentes coincide precisamente com a arquitetura do Bitcoin. Estudos linguísticos mostraram uma semelhança surpreendente entre a sua escrita e a de Nakamoto. Szabo negou várias vezes qualquer envolvimento, afirmando estar habituado a tais acusações.
Adam Back criou o Hashcash — sistema de prova de trabalho mencionado na white paper por Nakamoto. Back possuía conhecimentos criptográficos essenciais e foi um dos primeiros contatos de Nakamoto na elaboração do Bitcoin. Alguns apontam para o inglês britânico nos seus textos.
Craig Wright, cientista informático australiano, afirmou repetidamente e de forma insistente que é Satoshi Nakamoto. Tentou até registar direitos autorais do white paper nos EUA. Contudo, em março de 2024, o juiz do High Court do Reino Unido, James Mellor, declarou: «Wright não é autor do white paper do Bitcoin» e «não é uma pessoa que atuou sob o pseudónimo Satoshi Nakamoto». Os documentos de Wright foram considerados falsificados.
Peter Todd, antigo desenvolvedor do Bitcoin, foi mencionado no documentário HBO de 2024 «Money Electric: The Bitcoin Mystery» como possível candidato. A teoria baseia-se numa mensagem de chat, na qual Todd comentou um detalhe técnico de uma das últimas publicações de Nakamoto. Todd chamou essas hipóteses de «ridículas» e «apertar a palha».
Outros candidatos incluem Lena Sassaman ( criptógrafa, cuja entrada memorial foi codificada na blockchain após a sua morte em 2011), Paul Le Roux (desenvolvedor com passado criminal) e outros. Algumas teorias sugerem que Nakamoto não é uma única pessoa, mas um coletivo de desenvolvedores.
Porque o anonimato não é um mistério, mas uma decisão
O anonimato de Satoshi Nakamoto não é apenas um mistério intrigante. É fundamental para a própria filosofia do Bitcoin. Se Nakamoto fosse uma figura pública, a sua identidade tornaria-se o ponto central de vulnerabilidade de toda a rede.
As entidades governamentais poderiam exercer pressão, ameaçar ou prender. Interesses concorrentes poderiam tentar corrompê-lo. As suas declarações públicas teriam peso enorme, potencialmente causando volatilidade no mercado. A sua identidade torná-lo-ia alvo de extorsão e sequestro — considerando o seu património hipotético de dezenas de bilhões de dólares.
O desaparecimento de Nakamoto garantiu a descentralização do projeto. Permitiu que o Bitcoin evoluísse organicamente, gerido por uma comunidade, sem uma única pessoa com influência excessiva. Isso corresponde à essência da filosofia do criptoanarquismo — a visão de sistemas que funcionam independentemente de indivíduos.
Mas há uma camada ainda mais profunda: o anonimato de Nakamoto reforça a ética fundamental do Bitcoin — a confiança na matemática e no código, e não nas pessoas ou instituições. Num sistema projetado especificamente para eliminar a necessidade de terceiros confiáveis, o criador anónimo é a personificação do princípio de que o Bitcoin não requer que os utilizadores confiem em alguém, nem mesmo no seu inventor.
Das estátuas à política: como Nakamoto entrou na cultura
À medida que o Bitcoin saiu do nicho de entusiastas tecnológicos para o mainstream, a figura de Satoshi Nakamoto ganhou status de símbolo cultural. Em 2021, foi instalada em Budapeste uma estátua de bronze de Nakamoto com rosto refletor, permitindo que os espectadores se vejam na escultura — simbolizando a ideia de que «todos somos Satoshi». Uma estátua semelhante encontra-se em Lugano, Suíça, cidade que reconheceu o Bitcoin para pagamentos municipais.
Em 2024, o Bitcoin atingiu um máximo histórico acima de $109 000, levando o património estimado de Nakamoto a ultrapassar $120 mil milhões — quase o top 10 das pessoas mais ricas do mundo (embora nunca tenha gasto um cêntimo).
Em março de 2025, ocorreu um momento decisivo: o presidente Donald Trump assinou um decreto para criar a Reserva Estratégica de Bitcoin do Estado. Seria impensável para os primeiros seguidores do Bitcoin. A criação de Nakamoto, surgida como um experimento criptográfico durante a crise financeira, passou a ser reconhecida a nível estatal como um meio de preservação de valor.
A influência estendeu-se à cultura popular. Frases das cartas de Nakamoto tornaram-se mantras para a comunidade cripto: «A raiz do problema com a moeda tradicional é a confiança que ela exige para funcionar». Roupas com o nome e retrato de Nakamoto tornaram-se populares entre os entusiastas de criptomoedas. Em 2022, até uma marca famosa, Vans, lançou uma coleção limitada de Satoshi Nakamoto, destacando como o criador passou de uma figura desconhecida a um ícone cultural.
O legado que transforma as finanças
A white paper de Nakamoto não só criou o Bitcoin — ela deu início a toda uma indústria. A blockchain tornou-se a base para plataformas de contratos inteligentes, como o Ethereum. O financiamento descentralizado (DeFi) surgiu como uma consequência direta da sua visão, desafiando o sistema bancário tradicional.
Os bancos centrais de todo o mundo estão agora a desenvolver suas próprias moedas digitais, inspiradas na arquitetura da blockchain. Contudo, essas versões centralizadas diferem radicalmente da visão descentralizada de Nakamoto.
Até 2025, cerca de 500 milhões de pessoas em todo o mundo utilizam criptomoedas. A ausência de Nakamoto tornou-se parte da lenda cripto — a história do criador que deu ao mundo uma tecnologia revolucionária e depois desapareceu, permitindo que ela evoluísse organicamente, sem controlo centralizado. Tornou-se uma metáfora do próprio Bitcoin: um sistema poderoso que não necessita de uma autoridade central para funcionar.
Restam perguntas
Ninguém sabe com certeza se Satoshi Nakamoto está vivo. A sua última comunicação confirmada foi em abril de 2011. Desde então, não utilizou publicamente nenhuma das suas contas conhecidas e não moveu qualquer bitcoin.
Propostas de revelação jurídica da sua identidade surgem regularmente na comunidade cripto. Em outubro de 2023, circularam rumores de uma revelação prevista para 31 de outubro de 2024(, na comemoração do aniversário da publicação da white paper), mas a maioria dos especialistas rejeitou isso como infundado.
O nome «Satoshi Nakamoto» por si só pode ser uma pista. Alguns investigadores sugeriram que pode derivar dos nomes de quatro empresas tecnológicas: Samsung, Toshiba, Nakamichi e Motorola. Outros afirmaram que se traduz de forma grosseira como «inteligência central» em japonês, levando a teorias de origem estatal do Bitcoin.
O futuro na sombra
À medida que se aproxima o 17º aniversário do Bitcoin, o mistério de Satoshi Nakamoto permanece sem solução. Mas o paradoxo é que essa ausência de resolução pode estar perfeitamente planeada. Quando o criador se torna conhecido, o projeto torna-se vulnerável. Quando desaparece, o projeto torna-se invulnerável.
Será que a identidade de Nakamoto permanecerá envolta em mistério por décadas? Provavelmente. E, se assim for, isso pode ser o legado mais perfeito que ele poderia deixar — não uma estátua, nem uma fortuna de bilhões de dólares, mas uma ideia, incorporada no código, que exige fé não no criador, mas na própria matemática.
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Satoshi Nakamoto: criador que escolheu o desaparecimento em vez da fama
Quando, a 31 de outubro de 2008, uma pessoa desconhecida publicou um documento de nove páginas intitulado «Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System», poucos poderiam prever que este evento daria início a uma revolução financeira global. O autor, conhecido como Satoshi Nakamoto, apresentou uma solução para o problema do duplo gasto — o ponto fraco de todas as tentativas anteriores de criar uma moeda digital. Mas ainda mais intrigante é o próprio Nakamoto: a sua verdadeira identidade, os seus motivos e razões para ter preferido permanecer na sombra da sua própria criação.
A personalidade na white paper
De acordo com o perfil na plataforma P2P Foundation, Satoshi Nakamoto nasceu a 5 de abril de 1975. No entanto, uma investigação criptográfica e linguística sugere que essa data é mais simbólica do que real. 5 de abril é o dia em que, em 1933, o presidente Franklin Roosevelt assinou o Executive Order 6102, declarando ilegal a posse de ouro para os americanos. O ano de 1975 remete ao período em que essa restrição foi revogada. Essa escolha de data revela a ideologia de Nakamoto: o Bitcoin é posicionado como um equivalente digital do ouro, um armazenamento de valor fora do controlo estatal.
A análise linguística dos textos de Nakamoto revelou um inglês impecável com ortografia britânica de palavras como (colour, optimise), o que contradiz a sua alegada origem japonesa. A análise do seu padrão de atividade mostrou que ele raramente aparecia entre as 5h e as 11h da manhã, horário médio de Greenwich, indicando residência nos EUA ou no Reino Unido. A sua experiência precoce em programação é evidente no código — o uso da notação Hungarian( popularizada pela Microsoft no final dos anos 1980) e outras características estilísticas sugerem um desenvolvedor com décadas de experiência.
A arquitetura da revolução
A 3 de janeiro de 2009, Nakamoto criou o primeiro bloco da blockchain — o chamado genesis block. Nele foi encriptada uma frase do jornal britânico The Times: «The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks». Não foi apenas uma marca temporal. Foi uma declaração de intenção: criar uma alternativa ao sistema bancário tradicional, que na altura enfrentava uma crise profunda.
O Bitcoin v0.1 foi lançado no SourceForge, e Nakamoto começou a trabalhar com os primeiros participantes da rede, incluindo Hal Finney ( criptógrafo, que recebeu a primeira transação de Bitcoin), e Gavin Andresen. Até meados de 2010, Nakamoto começou a afastar-se gradualmente do projeto, delegando responsabilidades a outros desenvolvedores. A sua última comunicação confirmada data de abril de 2011, quando enviou uma carta a Andresen: «É uma pena que continues a falar de mim como uma figura misteriosa de sombras, a imprensa simplesmente transforma isso numa moeda pirata». Logo após, Nakamoto desapareceu completamente.
O estado que nunca foi gasto
A análise dos primeiros blocos da blockchain permitiu aos investigadores determinar que Nakamoto minerou aproximadamente 750.000 a 1.100.000 bitcoins no primeiro ano de existência da rede. Com o valor atual do Bitcoin por volta de $85 000 (abril de 2025), isso equivale a um património estimado entre $63,8 e $93,5 mil milhões — quase como a fortuna pessoal de Elon Musk. Poderia Nakamoto ser um dos vinte indivíduos mais ricos do planeta.
Mas o que realmente impressiona é que nenhum desses bitcoins foi alguma vez gasto. As carteiras de Nakamoto permanecem inalteradas desde o seu desaparecimento em 2011. O investigador de segurança Sergio Demian Lerner identificou um padrão nos primeiros blocos, conhecido como «padrão Patoshi», que permitiu aos peritos determinar com confiança quais os blocos minerados por Nakamoto. Curiosamente, Nakamoto reduziu conscientemente a sua atividade de mineração ao longo do tempo, dando assim oportunidade a outros de adquirirem bitcoins.
Existem três teorias principais sobre as razões para esse estado de inatividade. A primeira: Nakamoto perdeu o acesso às chaves privadas. A segunda: ele morreu. A terceira: deixou intencionalmente essa riqueza à disposição do ecossistema do Bitcoin, seguindo o princípio de que a sua criação deve evoluir sem influência centralizada. Alguns analistas sugerem que qualquer movimento dessas moedas revelaria a identidade de Nakamoto através de procedimentos KYC em exchanges ou na blockchain forensics.
Em busca de Nakamoto: teorias e candidatos
Apesar de várias investigações de jornalistas e criptógrafos, a identidade de Satoshi Nakamoto permanece evasiva. No entanto, destacam-se alguns candidatos sérios.
Hal Finney (1956–2014) foi um criptógrafo e cypherpunk com conhecimentos profundos em criptografia. Morava perto de um possível portador do nome Nakamoto em Tempel City, Califórnia. Análises estilométricas revelaram semelhanças na escrita, mas Finney, até a sua morte por ALS em 2014, negou ser Nakamoto.
Nick Szabo desenvolveu a concepção do Bit Gold em 1998 — um predecessor direto do Bitcoin. O seu entendimento de teoria monetária, criptografia e contratos inteligentes coincide precisamente com a arquitetura do Bitcoin. Estudos linguísticos mostraram uma semelhança surpreendente entre a sua escrita e a de Nakamoto. Szabo negou várias vezes qualquer envolvimento, afirmando estar habituado a tais acusações.
Adam Back criou o Hashcash — sistema de prova de trabalho mencionado na white paper por Nakamoto. Back possuía conhecimentos criptográficos essenciais e foi um dos primeiros contatos de Nakamoto na elaboração do Bitcoin. Alguns apontam para o inglês britânico nos seus textos.
Craig Wright, cientista informático australiano, afirmou repetidamente e de forma insistente que é Satoshi Nakamoto. Tentou até registar direitos autorais do white paper nos EUA. Contudo, em março de 2024, o juiz do High Court do Reino Unido, James Mellor, declarou: «Wright não é autor do white paper do Bitcoin» e «não é uma pessoa que atuou sob o pseudónimo Satoshi Nakamoto». Os documentos de Wright foram considerados falsificados.
Peter Todd, antigo desenvolvedor do Bitcoin, foi mencionado no documentário HBO de 2024 «Money Electric: The Bitcoin Mystery» como possível candidato. A teoria baseia-se numa mensagem de chat, na qual Todd comentou um detalhe técnico de uma das últimas publicações de Nakamoto. Todd chamou essas hipóteses de «ridículas» e «apertar a palha».
Outros candidatos incluem Lena Sassaman ( criptógrafa, cuja entrada memorial foi codificada na blockchain após a sua morte em 2011), Paul Le Roux (desenvolvedor com passado criminal) e outros. Algumas teorias sugerem que Nakamoto não é uma única pessoa, mas um coletivo de desenvolvedores.
Porque o anonimato não é um mistério, mas uma decisão
O anonimato de Satoshi Nakamoto não é apenas um mistério intrigante. É fundamental para a própria filosofia do Bitcoin. Se Nakamoto fosse uma figura pública, a sua identidade tornaria-se o ponto central de vulnerabilidade de toda a rede.
As entidades governamentais poderiam exercer pressão, ameaçar ou prender. Interesses concorrentes poderiam tentar corrompê-lo. As suas declarações públicas teriam peso enorme, potencialmente causando volatilidade no mercado. A sua identidade torná-lo-ia alvo de extorsão e sequestro — considerando o seu património hipotético de dezenas de bilhões de dólares.
O desaparecimento de Nakamoto garantiu a descentralização do projeto. Permitiu que o Bitcoin evoluísse organicamente, gerido por uma comunidade, sem uma única pessoa com influência excessiva. Isso corresponde à essência da filosofia do criptoanarquismo — a visão de sistemas que funcionam independentemente de indivíduos.
Mas há uma camada ainda mais profunda: o anonimato de Nakamoto reforça a ética fundamental do Bitcoin — a confiança na matemática e no código, e não nas pessoas ou instituições. Num sistema projetado especificamente para eliminar a necessidade de terceiros confiáveis, o criador anónimo é a personificação do princípio de que o Bitcoin não requer que os utilizadores confiem em alguém, nem mesmo no seu inventor.
Das estátuas à política: como Nakamoto entrou na cultura
À medida que o Bitcoin saiu do nicho de entusiastas tecnológicos para o mainstream, a figura de Satoshi Nakamoto ganhou status de símbolo cultural. Em 2021, foi instalada em Budapeste uma estátua de bronze de Nakamoto com rosto refletor, permitindo que os espectadores se vejam na escultura — simbolizando a ideia de que «todos somos Satoshi». Uma estátua semelhante encontra-se em Lugano, Suíça, cidade que reconheceu o Bitcoin para pagamentos municipais.
Em 2024, o Bitcoin atingiu um máximo histórico acima de $109 000, levando o património estimado de Nakamoto a ultrapassar $120 mil milhões — quase o top 10 das pessoas mais ricas do mundo (embora nunca tenha gasto um cêntimo).
Em março de 2025, ocorreu um momento decisivo: o presidente Donald Trump assinou um decreto para criar a Reserva Estratégica de Bitcoin do Estado. Seria impensável para os primeiros seguidores do Bitcoin. A criação de Nakamoto, surgida como um experimento criptográfico durante a crise financeira, passou a ser reconhecida a nível estatal como um meio de preservação de valor.
A influência estendeu-se à cultura popular. Frases das cartas de Nakamoto tornaram-se mantras para a comunidade cripto: «A raiz do problema com a moeda tradicional é a confiança que ela exige para funcionar». Roupas com o nome e retrato de Nakamoto tornaram-se populares entre os entusiastas de criptomoedas. Em 2022, até uma marca famosa, Vans, lançou uma coleção limitada de Satoshi Nakamoto, destacando como o criador passou de uma figura desconhecida a um ícone cultural.
O legado que transforma as finanças
A white paper de Nakamoto não só criou o Bitcoin — ela deu início a toda uma indústria. A blockchain tornou-se a base para plataformas de contratos inteligentes, como o Ethereum. O financiamento descentralizado (DeFi) surgiu como uma consequência direta da sua visão, desafiando o sistema bancário tradicional.
Os bancos centrais de todo o mundo estão agora a desenvolver suas próprias moedas digitais, inspiradas na arquitetura da blockchain. Contudo, essas versões centralizadas diferem radicalmente da visão descentralizada de Nakamoto.
Até 2025, cerca de 500 milhões de pessoas em todo o mundo utilizam criptomoedas. A ausência de Nakamoto tornou-se parte da lenda cripto — a história do criador que deu ao mundo uma tecnologia revolucionária e depois desapareceu, permitindo que ela evoluísse organicamente, sem controlo centralizado. Tornou-se uma metáfora do próprio Bitcoin: um sistema poderoso que não necessita de uma autoridade central para funcionar.
Restam perguntas
Ninguém sabe com certeza se Satoshi Nakamoto está vivo. A sua última comunicação confirmada foi em abril de 2011. Desde então, não utilizou publicamente nenhuma das suas contas conhecidas e não moveu qualquer bitcoin.
Propostas de revelação jurídica da sua identidade surgem regularmente na comunidade cripto. Em outubro de 2023, circularam rumores de uma revelação prevista para 31 de outubro de 2024(, na comemoração do aniversário da publicação da white paper), mas a maioria dos especialistas rejeitou isso como infundado.
O nome «Satoshi Nakamoto» por si só pode ser uma pista. Alguns investigadores sugeriram que pode derivar dos nomes de quatro empresas tecnológicas: Samsung, Toshiba, Nakamichi e Motorola. Outros afirmaram que se traduz de forma grosseira como «inteligência central» em japonês, levando a teorias de origem estatal do Bitcoin.
O futuro na sombra
À medida que se aproxima o 17º aniversário do Bitcoin, o mistério de Satoshi Nakamoto permanece sem solução. Mas o paradoxo é que essa ausência de resolução pode estar perfeitamente planeada. Quando o criador se torna conhecido, o projeto torna-se vulnerável. Quando desaparece, o projeto torna-se invulnerável.
Será que a identidade de Nakamoto permanecerá envolta em mistério por décadas? Provavelmente. E, se assim for, isso pode ser o legado mais perfeito que ele poderia deixar — não uma estátua, nem uma fortuna de bilhões de dólares, mas uma ideia, incorporada no código, que exige fé não no criador, mas na própria matemática.