Batalha judicial em torno de Pump.fun: 15 mil mensagens de chat revelam a realidade do mercado de criptomoedas

Quando sonhar com um lucro de 100 vezes se torna a norma, os processos judiciais aguardam na fila. O caso contra Pump.fun e o ecossistema Solana não é apenas mais um escândalo cripto, mas uma ação civil que se desenvolve diante de nossos olhos.

De micro-perdas à infame conspiração

A história começou modestamente. Em 16 de janeiro de 2025, o investidor Kendall Carnahan foi ao tribunal após perder 231 dólares no token $PNUT. Duas semanas depois, Diego Aguilar entrou com uma nova ação, mas com um conjunto mais amplo de reclamações — suas perdas envolveram vários meme-okens. A juíza Colleen McMahon, do Distrito Sul de Nova York, rapidamente reconheceu: por que considerar separadamente o que é essencialmente o mesmo?

Em 26 de junho, ambos os casos foram oficialmente unidos. No lugar de Carnahan e Aguilar, entrou Michael Okafor, a pessoa com maiores perdas — cerca de 242.000 dólares. Essa escolha foi lógica de acordo com a Lei de Reforma de Reclamações Privadas (PSLRA): o principal reclamante deveria ser aquele com maior prejuízo.

Mas tudo realmente começou após essa união. Em 23 de julho, os reclamantes apresentaram uma queixa ampliada, que mudou radicalmente a natureza do caso. A lista de réus foi ampliada para incluir Solana Labs, Solana Foundation e sua liderança, além da Jito Labs — atores-chave do ecossistema.

Três pilares da rede

Os reclamantes relataram uma história de conspiração composta por três partes. Pump.fun atuava como plataforma, Solana fornecia a infraestrutura blockchain, e Jito — ferramentas para extrair valor (MEV). Juntos, formam um sistema que parece descentralizado, mas na verdade é controlado.

Segundo os documentos judiciais, a integração técnica entre esses atores foi muito além de uma parceria comum. Os reclamantes afirmaram que centenas de mensagens entre as equipes demonstram coordenação, especialmente em torno do uso de Jito bundles para front-running. Insideres, cientes dessas “truques”, pagavam taxas adicionais para execução prioritária de suas ordens — enquanto usuários comuns permaneciam na mesma.

Acusações centrais: de papéis a RICO

O caso evolui por vários vetores. Primeiro, os reclamantes consideram todos os meme-tokens lançados na Pump.fun como valores mobiliários não registrados — exatamente conforme o Howey Test. Este padrão jurídico, estabelecido pela Suprema Corte dos EUA em 1946, define um contrato de investimento como um acordo no qual uma pessoa investe dinheiro em uma empresa conjunta com expectativa de lucro proveniente de esforços de terceiros. Se o token atender a esse teste, deve ser registrado na SEC e acompanhado de divulgação de informações.

Em segundo lugar, os reclamantes qualificaram a Pump.fun como uma “cassino de Meme-okens” — sem licenças, sem KYC, sem procedimentos AML. A plataforma recebia 1% de comissão em cada operação, semelhante a um cassino que lucra com cada aposta.

Em terceiro lugar — fraude por meios eletrônicos. A publicidade de “lançamento justo” sem vendas prévias contrastava com o conteúdo da integração Jito. Era uma manipulação — a fachada de justiça encobria a realidade de privilégios de insiders.

Mais importante, os reclamantes apresentaram acusações sob RICO — Lei Federal contra Organizações Criminosas. Em agosto, descreveram três empresas como uma “organização de extorsão”, atuando sob a máscara de inovação.

Provas chegam silenciosamente, mas com peso

O momento decisivo ocorreu no outono. Um “informante secreto” entregou aos advogados dos reclamantes cerca de 5000 mensagens internas de chat. Depois, em 21 de outubro, chegou uma segunda leva — mais de 10.000 mensagens e materiais.

Esses chats, segundo alegam, descrevem detalhadamente: coordenação técnica entre Pump.fun e Solana Labs, integração de ferramentas MEV Jito, discussão de “otimizações” nos processos de negociação (os reclamantes consideram isso um eufemismo para manipulações). Os advogados afirmaram que os materiais “revelam uma rede de fraude cuidadosamente planejada” — passando de suposições para, se não provas diretas, pelo menos fundamentos sérios para sua análise.

O volume de trabalho foi enorme. Em 9 de dezembro, o tribunal autorizou a apresentação de uma segunda queixa alterada, mas os advogados precisaram de tempo para revisar, classificar, traduzir e analisar 15.000 chats. Em 11 de dezembro, a juíza McMahon prorrogou o prazo até 7 de janeiro de 2026.

Silêncio como tática

Enquanto isso, o mercado contava sua história em números. O volume semanal de negociações na Pump.fun caiu de um pico em janeiro — 3,3 bilhões de dólares — para 481 milhões. Uma redução de mais de 80%. O preço do PUMP caiu para 0,0019 dólares, cerca de 78% do seu máximo.

O mercado cripto via isso como parte de um ciclo de queda, mas as pistas de insiders eram diferentes. O cofundador Alon Cohen desapareceu das redes sociais. Os líderes da Solana e Jito permaneceram em silêncio público.

A única coisa que não parou foi a recompra. Pump.fun continuou comprando tokens diariamente, acumulando 216 milhões de dólares em recompras — cerca de 15,16% da oferta circulante.

Questões que permanecem

No início de 2026, o caso entra em uma nova fase. Vários grandes incógnitas permanecem obscuras:

Quem exatamente é esse informante? Ex-funcionário, concorrente ou regulador? O que realmente contêm os 15.000 chats — provas reais de conspiração ou conversas comerciais tiradas de contexto? Como Solana, Jito e a própria Pump.fun vão se defender?

A discussão sobre descentralização, justiça e integração do mercado cripto já ultrapassou a teoria. Os documentos judiciais, as palavras dos reclamantes e o silêncio dos réus criam um retrato: Pump.fun é apenas uma plataforma ou uma máquina projetada para extrair dinheiro de investidores desavisados em benefício de poucos escolhidos?

As respostas devem chegar até 7 de janeiro.

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