Quando ouves que os preços estão a cair, o teu primeiro instinto pode ser entusiasmo. Quem não gosta de pagar menos? Mas na macroeconomia, as quedas de preços desencadeiam reações muito diferentes. A economia enfrenta um paradoxo perigoso: o que parece bom para o teu orçamento de compras pode tornar-se catastrófico para empregos, salários e saúde económica geral. Compreender a diferença entre deflação e desinflação é crucial para entender por que os bancos centrais trabalham tanto para prevenir a primeira.
Deflação e Desinflação Explicadas: Dois Cenários Económicos Diferentes
Embora deflação e desinflação pareçam semelhantes—ambas sugerindo pressão descendente sobre os preços—representam condições económicas fundamentalmente diferentes. Esta distinção entre deflação vs desinflação é mais do que semântica; reflete dinâmicas de mercado opostas com consequências bastante distintas.
Deflação ocorre quando o nível geral de preços de bens e serviços diminui em toda a economia. O teu poder de compra expande-se: os mesmos 100€ compram mais mantimentos, roupa e serviços amanhã do que hoje. Parece ideal, certo? O problema é que a deflação sinaliza fraqueza económica e desencadeia um padrão comportamental destrutivo. Quando consumidores e empresas esperam que os preços caiam ainda mais, adiam compras, na esperança de comprar mais barato mais tarde. Este atraso nos gastos reverbera na economia—os produtores ganham menos receita, as empresas cortam custos despedindo trabalhadores, os salários caem, e os consumidores gastam ainda menos. O resultado é uma espiral descendente onde preços mais baixos geram ainda preços mais baixos.
Desinflação, por outro lado, refere-se a uma desaceleração na taxa de aumento dos preços—não a uma queda real dos preços. Imagina que a inflação, que estava a 4% ao ano, de repente cai para 2% ao ano. Os preços continuam a subir; apenas sobem mais lentamente. Um produto que antes custava 10€ poderia ter sido esperado atingir 10,40€ (a 4% de inflação), mas em vez disso só chega a 10,20€ (a 2% de inflação). Os preços estão a subir, só que de forma mais suave.
Esta diferença—deflação vs desinflação—é enormemente importante. A desinflação pode fazer parte de uma gestão económica saudável, ajudando a arrefecer uma economia superaquecida. A deflação, entretanto, sinaliza normalmente dificuldades económicas e requer intervenção política urgente.
A Economia por Trás da Queda de Preços: O Ciclo Destrutivo da Deflação
A deflação cria o que os economistas chamam de espiral deflacionária—um ciclo descendente auto-reforçado difícil de escapar. Assim funciona:
O Gatilho: Ou a procura agregada despenca ou a oferta agregada dispara. Um choque económico importante—uma pandemia, crise financeira ou perda de confiança do consumidor—faz com que as pessoas cortem nos gastos e poupem agressivamente. Alternativamente, avanços tecnológicos ou eficiências de produção podem inundar o mercado com bens baratos, forçando os vendedores a reduzir preços.
O Ciclo Vicioso: À medida que os preços caem, as margens de lucro das empresas encolhem. Para manterem os lucros, as empresas reduzem custos—principalmente cortando salários. O aumento do desemprego diminui ainda mais a procura. Os consumidores adiam compras importantes como casas e veículos, os bancos apertam o crédito, e as taxas de juro podem paradoxalmente subir (tornando a dívida existente mais cara em termos reais). Cada passo aprofunda o próximo, criando um momentum em direção a uma depressão económica.
Por que a Deflação vs Desinflação Importa Aqui: A desinflação (crescimento mais lento dos preços) raramente desencadeia esta espiral porque os preços ainda sobem e as expectativas dos consumidores permanecem relativamente estáveis. A deflação, porém, altera fundamentalmente as expectativas—as pessoas acreditam que os preços estarão mais baixos no próximo mês, tornando-se racional esperar.
O que Gera a Deflação? Oferta, Procura e Mudanças Económicas
A deflação resulta de duas fontes principais:
Colapso da Procura: Quando famílias e empresas perdem confiança na economia, cortam nos gastos. A política monetária desempenha um papel-chave—se os bancos centrais aumentarem fortemente as taxas de juro, o crédito torna-se caro, desincentivando tanto as compras dos consumidores como o investimento empresarial. Um choque súbito, como uma pandemia, pânico financeiro ou queda do mercado bolsista, pode devastar a confiança do consumidor de um dia para o outro. Pessoas preocupadas com o desemprego começam a acumular dinheiro em vez de gastar.
Aumento da Oferta: Se os custos de produção caírem devido a avanços tecnológicos ou ganhos de eficiência, as empresas podem produzir muito mais bens pelo mesmo preço. Quando a oferta sobrecarrega a procura, os vendedores têm de competir cortando preços. Esta abundância paradoxalmente cria dificuldades para os produtores, que ganham menos receita apesar de venderem mais.
A ironia é que as quedas de preços impulsionadas pela oferta (por melhorias genuínas de produtividade) e as impulsionadas pela procura (por colapsos económicos) parecem idênticas aos consumidores, mas têm implicações de saúde económica opostas. Ainda assim, ambas podem desencadear espirais deflacionárias se as expectativas mudarem.
As Consequências Reais: Porque os Bancos Centrais Temem a Deflação
Aumento do Desemprego: Quando a deflação se instala, as empresas enfrentam receitas a encolher. As reduções de salários aceleram, elevando o desemprego e criando um choque secundário na procura.
A Dívida Torna-se uma Armadilha: Esta é a ironia cruel da deflação. Como os preços caem, o valor real da dívida aumenta. Uma hipoteca de 200.000€ torna-se progressivamente mais pesada em termos económicos reais. Consumidores e empresas adiam todos os empréstimos não essenciais, privando o investimento produtivo de capital. Mesmo pagar a dívida existente torna-se mais difícil à medida que os salários caem.
A Espiral Deflacionária Aprofunda-se: Preços a cair → produção reduzida → salários mais baixos → gastos diminuídos → preços ainda mais baixos. Cada ciclo agrava a situação económica, podendo transformar uma recessão numa depressão profunda. O Japão viveu esta dinâmica durante décadas após os anos 90, com o seu IPC a manter-se quase plano ou ligeiramente negativo desde 1998, dificultando o crescimento a longo prazo.
Deflação vs Desinflação: Porque os Bancos Centrais Preferem a Inflação
Esta comparação revela por que os bancos centrais modernos gerem ativamente para manter uma inflação moderada, em vez de permitir que a desinflação ou a deflação se instalem.
A Luz ao Fundo da Inflação: Embora a subida de preços reduza o poder de compra—o teu euro rende menos—a inflação diminui o peso real da dívida. Um tomador de empréstimo com uma hipoteca fixa a 5% beneficia à medida que a inflação sobe; ele paga o empréstimo com euros que valem progressivamente menos. Isto incentiva o gasto e o investimento, mantendo as economias dinâmicas. Uma inflação anual moderada de 1-3% é considerada saudável, indicando uma economia em crescimento com consumo e investimento ativos.
A Armadilha da Deflação: Com a deflação, a dívida torna-se mais cara em termos reais, e manter dinheiro em caixa torna-se o investimento “mais seguro”—apesar de render quase zero. As ações, obrigações e imóveis tornam-se extremamente arriscados porque as empresas podem falir completamente ou enfrentar dificuldades severas. A estrutura de incentivos inverte-se: em vez de gastar e investir, os agentes racionais acumulam dinheiro. Este paralisia explica porque a deflação é muito mais temida.
Estratégias de Proteção Divergentes: Contra a inflação, os investidores têm recursos—comprar ações, obrigações, imóveis ou commodities que normalmente superam a inflação, preservando o poder de compra. Contra a deflação? Poucos refúgios seguros além do dinheiro, que não rende nada. A assimetria explica porque os bancos centrais tratam a deflação como uma emergência.
Exemplos Reais: Como a Deflação Remodelou Economias
A Grande Depressão (1929-1933): O desastre deflacionário mais infame. Após o crash bolsista de 1929, a procura agregada colapsou. Entre o verão de 1929 e o início de 1933, os preços no atacado caíram 33%—uma contração catastrófica. O desemprego subiu acima de 20%. Empresas que não sobreviveram ao colapso de preços simplesmente desapareceram. Esta catástrofe deflacionária afetou praticamente todas as nações industrializadas, e a produção nos EUA só voltou ao seu percurso pré-crise em 1942. A Grande Depressão permanece como o exemplo definidor do poder destrutivo da deflação.
As Décadas Perdidas do Japão (1990-2010): O Japão oferece um exemplo moderno de advertência. Após o colapso da bolha de ativos no início dos anos 90, a economia japonesa entrou numa deflação moderada que persistiu durante décadas. O IPC tem estado quase plano ou ligeiramente negativo desde 1998, exceto por breves períodos antes da crise financeira de 2007-08. Diferentes explicações competem pela primazia—alguns economistas culpam a lacuna de produção do Japão (a diferença entre a produção real e a potencial), outros apontam para uma política monetária insuficiente pelo Banco do Japão. Seja como for, o Banco do Japão acabou por adotar uma política de taxas de juro negativas, penalizando as retenções de dinheiro para combater a deflação persistente. A estagnação do Japão demonstra os efeitos corrosivos de longo prazo da deflação.
A Grande Recessão (2007-2009): Os receios de deflação eram grandes, com a queda de preços de commodities, colapso de valores imobiliários, aumento do desemprego e queda das bolsas. Devedores enfrentaram escolhas impossíveis à medida que os ativos caíam mais rápido que as dívidas. Os economistas temiam seriamente que a economia entrasse numa espiral de deflação profunda. Curiosamente, esse cenário catastrófico não se concretizou—parcialmente porque as taxas de juro já estavam elevadas quando a recessão começou, impedindo muitas empresas de reduzir ainda mais os preços. Essa rigidez relativa dos preços, paradoxalmente, protegeu a economia de uma deflação mais ampla, embora tenha tornado a crise imediata mais severa.
Ferramentas do Governo para Combater a Deflação e Proteger a Economia
Os bancos centrais e os governos dispõem de várias armas contra a deflação:
Expansão da Oferta Monetária: O Reserva Federal pode comprar títulos do governo e outros ativos, injetando dinheiro recém-criado na economia. Mais dinheiro em circulação reduz o valor de cada euro, incentivando o gasto e elevando os preços. Este processo pode interromper a espiral deflacionária.
Redução das Taxas de Juro e Alívio do Crédito: Ao reduzir as taxas de referência e exigir que os bancos mantenham rácios de reserva mais baixos, os bancos centrais tornam o crédito mais barato e mais acessível. Taxas mais baixas incentivam tanto o despesa do consumidor como o investimento empresarial, estimulando a procura e os preços.
Estímulo Fiscal: Os governos podem aumentar os gastos em infraestruturas, serviços públicos ou pagamentos diretos às famílias, ao mesmo tempo que reduzem impostos. Isto aumenta a procura agregada e a renda disponível, incentivando o consumo e elevando os níveis de preços.
Orientação Prospectiva: Os bancos centrais podem comprometer-se publicamente a manter políticas acomodatícias, sinalizando aos mercados que a deflação não será tolerada. Isto pode alterar expectativas e incentivar o gasto antes mesmo de as políticas entrarem em vigor.
Conclusão: A Deflação Continua a Ser o Maior Medo da Economia
A diferença entre deflação vs desinflação molda fundamentalmente a política económica e a estratégia de investimento. Enquanto a desinflação—uma desaceleração no aumento dos preços—pode fazer parte de ciclos económicos normais e não desencadeia normalmente resultados catastróficos, a deflação representa uma emergência económica que exige respostas políticas agressivas.
A característica definidora da deflação é a sua natureza auto-reforçada: preços a cair desincentivam o gasto, o que reduz ainda mais a procura e os preços, criando um ciclo vicioso difícil de escapar sem intervenção forçada. A história confirma repetidamente este padrão, desde a Grande Depressão às décadas perdidas do Japão. Em contraste, uma inflação moderada, embora reduza o poder de compra, mantém a dinâmica económica ao recompensar o gasto e o investimento em vez da acumulação de riqueza.
Por isso, os bancos centrais modernos visam taxas de inflação positivas, por isso os governos mantêm ferramentas de crise para combater a deflação, e por isso a distinção entre deflação e desinflação continua a ser crucial para quem deseja compreender a política macroeconómica e proteger os seus interesses financeiros.
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Compreender Deflação vs Desinflação: Por que a distinção importa para a sua carteira
Quando ouves que os preços estão a cair, o teu primeiro instinto pode ser entusiasmo. Quem não gosta de pagar menos? Mas na macroeconomia, as quedas de preços desencadeiam reações muito diferentes. A economia enfrenta um paradoxo perigoso: o que parece bom para o teu orçamento de compras pode tornar-se catastrófico para empregos, salários e saúde económica geral. Compreender a diferença entre deflação e desinflação é crucial para entender por que os bancos centrais trabalham tanto para prevenir a primeira.
Deflação e Desinflação Explicadas: Dois Cenários Económicos Diferentes
Embora deflação e desinflação pareçam semelhantes—ambas sugerindo pressão descendente sobre os preços—representam condições económicas fundamentalmente diferentes. Esta distinção entre deflação vs desinflação é mais do que semântica; reflete dinâmicas de mercado opostas com consequências bastante distintas.
Deflação ocorre quando o nível geral de preços de bens e serviços diminui em toda a economia. O teu poder de compra expande-se: os mesmos 100€ compram mais mantimentos, roupa e serviços amanhã do que hoje. Parece ideal, certo? O problema é que a deflação sinaliza fraqueza económica e desencadeia um padrão comportamental destrutivo. Quando consumidores e empresas esperam que os preços caiam ainda mais, adiam compras, na esperança de comprar mais barato mais tarde. Este atraso nos gastos reverbera na economia—os produtores ganham menos receita, as empresas cortam custos despedindo trabalhadores, os salários caem, e os consumidores gastam ainda menos. O resultado é uma espiral descendente onde preços mais baixos geram ainda preços mais baixos.
Desinflação, por outro lado, refere-se a uma desaceleração na taxa de aumento dos preços—não a uma queda real dos preços. Imagina que a inflação, que estava a 4% ao ano, de repente cai para 2% ao ano. Os preços continuam a subir; apenas sobem mais lentamente. Um produto que antes custava 10€ poderia ter sido esperado atingir 10,40€ (a 4% de inflação), mas em vez disso só chega a 10,20€ (a 2% de inflação). Os preços estão a subir, só que de forma mais suave.
Esta diferença—deflação vs desinflação—é enormemente importante. A desinflação pode fazer parte de uma gestão económica saudável, ajudando a arrefecer uma economia superaquecida. A deflação, entretanto, sinaliza normalmente dificuldades económicas e requer intervenção política urgente.
A Economia por Trás da Queda de Preços: O Ciclo Destrutivo da Deflação
A deflação cria o que os economistas chamam de espiral deflacionária—um ciclo descendente auto-reforçado difícil de escapar. Assim funciona:
O Gatilho: Ou a procura agregada despenca ou a oferta agregada dispara. Um choque económico importante—uma pandemia, crise financeira ou perda de confiança do consumidor—faz com que as pessoas cortem nos gastos e poupem agressivamente. Alternativamente, avanços tecnológicos ou eficiências de produção podem inundar o mercado com bens baratos, forçando os vendedores a reduzir preços.
O Ciclo Vicioso: À medida que os preços caem, as margens de lucro das empresas encolhem. Para manterem os lucros, as empresas reduzem custos—principalmente cortando salários. O aumento do desemprego diminui ainda mais a procura. Os consumidores adiam compras importantes como casas e veículos, os bancos apertam o crédito, e as taxas de juro podem paradoxalmente subir (tornando a dívida existente mais cara em termos reais). Cada passo aprofunda o próximo, criando um momentum em direção a uma depressão económica.
Por que a Deflação vs Desinflação Importa Aqui: A desinflação (crescimento mais lento dos preços) raramente desencadeia esta espiral porque os preços ainda sobem e as expectativas dos consumidores permanecem relativamente estáveis. A deflação, porém, altera fundamentalmente as expectativas—as pessoas acreditam que os preços estarão mais baixos no próximo mês, tornando-se racional esperar.
O que Gera a Deflação? Oferta, Procura e Mudanças Económicas
A deflação resulta de duas fontes principais:
Colapso da Procura: Quando famílias e empresas perdem confiança na economia, cortam nos gastos. A política monetária desempenha um papel-chave—se os bancos centrais aumentarem fortemente as taxas de juro, o crédito torna-se caro, desincentivando tanto as compras dos consumidores como o investimento empresarial. Um choque súbito, como uma pandemia, pânico financeiro ou queda do mercado bolsista, pode devastar a confiança do consumidor de um dia para o outro. Pessoas preocupadas com o desemprego começam a acumular dinheiro em vez de gastar.
Aumento da Oferta: Se os custos de produção caírem devido a avanços tecnológicos ou ganhos de eficiência, as empresas podem produzir muito mais bens pelo mesmo preço. Quando a oferta sobrecarrega a procura, os vendedores têm de competir cortando preços. Esta abundância paradoxalmente cria dificuldades para os produtores, que ganham menos receita apesar de venderem mais.
A ironia é que as quedas de preços impulsionadas pela oferta (por melhorias genuínas de produtividade) e as impulsionadas pela procura (por colapsos económicos) parecem idênticas aos consumidores, mas têm implicações de saúde económica opostas. Ainda assim, ambas podem desencadear espirais deflacionárias se as expectativas mudarem.
As Consequências Reais: Porque os Bancos Centrais Temem a Deflação
Aumento do Desemprego: Quando a deflação se instala, as empresas enfrentam receitas a encolher. As reduções de salários aceleram, elevando o desemprego e criando um choque secundário na procura.
A Dívida Torna-se uma Armadilha: Esta é a ironia cruel da deflação. Como os preços caem, o valor real da dívida aumenta. Uma hipoteca de 200.000€ torna-se progressivamente mais pesada em termos económicos reais. Consumidores e empresas adiam todos os empréstimos não essenciais, privando o investimento produtivo de capital. Mesmo pagar a dívida existente torna-se mais difícil à medida que os salários caem.
A Espiral Deflacionária Aprofunda-se: Preços a cair → produção reduzida → salários mais baixos → gastos diminuídos → preços ainda mais baixos. Cada ciclo agrava a situação económica, podendo transformar uma recessão numa depressão profunda. O Japão viveu esta dinâmica durante décadas após os anos 90, com o seu IPC a manter-se quase plano ou ligeiramente negativo desde 1998, dificultando o crescimento a longo prazo.
Deflação vs Desinflação: Porque os Bancos Centrais Preferem a Inflação
Esta comparação revela por que os bancos centrais modernos gerem ativamente para manter uma inflação moderada, em vez de permitir que a desinflação ou a deflação se instalem.
A Luz ao Fundo da Inflação: Embora a subida de preços reduza o poder de compra—o teu euro rende menos—a inflação diminui o peso real da dívida. Um tomador de empréstimo com uma hipoteca fixa a 5% beneficia à medida que a inflação sobe; ele paga o empréstimo com euros que valem progressivamente menos. Isto incentiva o gasto e o investimento, mantendo as economias dinâmicas. Uma inflação anual moderada de 1-3% é considerada saudável, indicando uma economia em crescimento com consumo e investimento ativos.
A Armadilha da Deflação: Com a deflação, a dívida torna-se mais cara em termos reais, e manter dinheiro em caixa torna-se o investimento “mais seguro”—apesar de render quase zero. As ações, obrigações e imóveis tornam-se extremamente arriscados porque as empresas podem falir completamente ou enfrentar dificuldades severas. A estrutura de incentivos inverte-se: em vez de gastar e investir, os agentes racionais acumulam dinheiro. Este paralisia explica porque a deflação é muito mais temida.
Estratégias de Proteção Divergentes: Contra a inflação, os investidores têm recursos—comprar ações, obrigações, imóveis ou commodities que normalmente superam a inflação, preservando o poder de compra. Contra a deflação? Poucos refúgios seguros além do dinheiro, que não rende nada. A assimetria explica porque os bancos centrais tratam a deflação como uma emergência.
Exemplos Reais: Como a Deflação Remodelou Economias
A Grande Depressão (1929-1933): O desastre deflacionário mais infame. Após o crash bolsista de 1929, a procura agregada colapsou. Entre o verão de 1929 e o início de 1933, os preços no atacado caíram 33%—uma contração catastrófica. O desemprego subiu acima de 20%. Empresas que não sobreviveram ao colapso de preços simplesmente desapareceram. Esta catástrofe deflacionária afetou praticamente todas as nações industrializadas, e a produção nos EUA só voltou ao seu percurso pré-crise em 1942. A Grande Depressão permanece como o exemplo definidor do poder destrutivo da deflação.
As Décadas Perdidas do Japão (1990-2010): O Japão oferece um exemplo moderno de advertência. Após o colapso da bolha de ativos no início dos anos 90, a economia japonesa entrou numa deflação moderada que persistiu durante décadas. O IPC tem estado quase plano ou ligeiramente negativo desde 1998, exceto por breves períodos antes da crise financeira de 2007-08. Diferentes explicações competem pela primazia—alguns economistas culpam a lacuna de produção do Japão (a diferença entre a produção real e a potencial), outros apontam para uma política monetária insuficiente pelo Banco do Japão. Seja como for, o Banco do Japão acabou por adotar uma política de taxas de juro negativas, penalizando as retenções de dinheiro para combater a deflação persistente. A estagnação do Japão demonstra os efeitos corrosivos de longo prazo da deflação.
A Grande Recessão (2007-2009): Os receios de deflação eram grandes, com a queda de preços de commodities, colapso de valores imobiliários, aumento do desemprego e queda das bolsas. Devedores enfrentaram escolhas impossíveis à medida que os ativos caíam mais rápido que as dívidas. Os economistas temiam seriamente que a economia entrasse numa espiral de deflação profunda. Curiosamente, esse cenário catastrófico não se concretizou—parcialmente porque as taxas de juro já estavam elevadas quando a recessão começou, impedindo muitas empresas de reduzir ainda mais os preços. Essa rigidez relativa dos preços, paradoxalmente, protegeu a economia de uma deflação mais ampla, embora tenha tornado a crise imediata mais severa.
Ferramentas do Governo para Combater a Deflação e Proteger a Economia
Os bancos centrais e os governos dispõem de várias armas contra a deflação:
Expansão da Oferta Monetária: O Reserva Federal pode comprar títulos do governo e outros ativos, injetando dinheiro recém-criado na economia. Mais dinheiro em circulação reduz o valor de cada euro, incentivando o gasto e elevando os preços. Este processo pode interromper a espiral deflacionária.
Redução das Taxas de Juro e Alívio do Crédito: Ao reduzir as taxas de referência e exigir que os bancos mantenham rácios de reserva mais baixos, os bancos centrais tornam o crédito mais barato e mais acessível. Taxas mais baixas incentivam tanto o despesa do consumidor como o investimento empresarial, estimulando a procura e os preços.
Estímulo Fiscal: Os governos podem aumentar os gastos em infraestruturas, serviços públicos ou pagamentos diretos às famílias, ao mesmo tempo que reduzem impostos. Isto aumenta a procura agregada e a renda disponível, incentivando o consumo e elevando os níveis de preços.
Orientação Prospectiva: Os bancos centrais podem comprometer-se publicamente a manter políticas acomodatícias, sinalizando aos mercados que a deflação não será tolerada. Isto pode alterar expectativas e incentivar o gasto antes mesmo de as políticas entrarem em vigor.
Conclusão: A Deflação Continua a Ser o Maior Medo da Economia
A diferença entre deflação vs desinflação molda fundamentalmente a política económica e a estratégia de investimento. Enquanto a desinflação—uma desaceleração no aumento dos preços—pode fazer parte de ciclos económicos normais e não desencadeia normalmente resultados catastróficos, a deflação representa uma emergência económica que exige respostas políticas agressivas.
A característica definidora da deflação é a sua natureza auto-reforçada: preços a cair desincentivam o gasto, o que reduz ainda mais a procura e os preços, criando um ciclo vicioso difícil de escapar sem intervenção forçada. A história confirma repetidamente este padrão, desde a Grande Depressão às décadas perdidas do Japão. Em contraste, uma inflação moderada, embora reduza o poder de compra, mantém a dinâmica económica ao recompensar o gasto e o investimento em vez da acumulação de riqueza.
Por isso, os bancos centrais modernos visam taxas de inflação positivas, por isso os governos mantêm ferramentas de crise para combater a deflação, e por isso a distinção entre deflação e desinflação continua a ser crucial para quem deseja compreender a política macroeconómica e proteger os seus interesses financeiros.