A Dificuldade de Transformação da Bitdeer na Dívida de 1,3 Mil Milhões de Dólares e da Riot na Mineração

Na encruzilhada da história da mineração de criptomoedas, empresas mineradoras como a Bitdeer e a Riot estão a fazer uma aposta estratégica de grande risco. Em fevereiro de 2026, a Bitdeer concluiu uma nova rodada de financiamento, acumulando uma dívida de 1,3 mil milhões de dólares, muito superior aos passivos de concorrentes como Riot e MARA. Isto não é apenas uma dificuldade financeira, mas um espelho de toda a indústria a transitar de mineração de Bitcoin para infraestruturas de IA.

Antigamente, a lógica da mineração era simples: trocar eletricidade e hardware por Bitcoin no dia seguinte. Agora, empresas como a Bitdeer estão a reescrever essa lógica — comprando ativos energéticos globais com dívida massiva, na esperança de que a futura procura de capacidade de IA justifique esse risco. Embora Riot, MARA e outros também estejam a explorar IA, a sua estratégia permanece mais conservadora, mantendo posições em Bitcoin. Ainda não se sabe qual caminho será mais vantajoso, o mercado está a observar.

De negócio de hardware a império energético: a transformação da Bitdeer

Fundada em 2018, a Bitdeer começou como uma plataforma de partilha de hardware de mineração, mas hoje é uma das maiores empresas de mineração listadas globalmente. Segundo dados recentes, a sua capacidade de mineração atingiu 63,2 EH/s, representando cerca de 6% do poder de hashing da rede Bitcoin mundial, o que a coloca em primeiro lugar entre as mineradoras cotadas. Mas esse título está a perder brilho.

O verdadeiro objetivo da Bitdeer mudou. O CEO Wu Jihan já não quer vender capacidade de hashing, mas controlar a eletricidade. Até início de 2026, a capacidade total de canais de energia da Bitdeer atingiu 3002 MW, com 1658 MW em operação, e 1344 MW em construção ou por construir. Isto equivale à energia consumida por 10 a 30 data centers da Google.

Por trás desta ambição, há uma dívida enorme: ao final de 2025, a dívida contabilística da Bitdeer ultrapassava 1 mil milhões de dólares, acrescida de 325 milhões de dólares em obrigações convertíveis emitidas em fevereiro de 2026, elevando o total de dívida para mais de 1,3 mil milhões. Este montante destina-se principalmente a um objetivo — conquistar ativos energéticos globalmente, preparando o terreno para a transição para centros de dados de IA.

A estratégia energética da Bitdeer inclui três projetos principais: a instalação de 563 MW em Rockdale, Texas (incluindo uma expansão de 179 MW), já operacional e com negócios de mineração tradicionais sólidos; o projeto de 570 MW em Clarington, Ohio, com contrato de arrendamento de 30 anos, destinado a centros de HPC/IA, com conclusão prevista para o segundo trimestre de 2027, sendo o núcleo da transformação, embora com maior risco; e o projeto hidroelétrico de 175 MW em Tydal, Noruega, atualmente a converter uma mina em centro de IA, com conclusão prevista para o final de 2026, sendo o mais barato e de menor risco.

Para além de ativos energéticos, a Bitdeer também investe em chips. A sua linha de chips SEALMINER, na sua terceira geração, atinge uma eficiência de 9,7 J/T, enquanto o modelo A3 Pro, em desenvolvimento, já é considerado um dos melhores do mundo. O objetivo para o SEAL04 é atingir 5 J/T, superando todos os principais concorrentes. A margem de lucro do negócio de chips ultrapassa os 40%, muito acima da mineração. Isto remete ao período em que Wu Jihan liderou a Bitmain — evoluindo de comprar ferramentas de terceiros para fabricar as suas próprias.

Promessas de IA e a lacuna com a realidade

Para impulsionar essa transição, a Bitdeer realizou várias rodadas de financiamento em menos de dois anos. Em maio de 2024, a Tether investiu 100 milhões de dólares, tornando-se a segunda maior acionista, com direito a um warrant de reinvestimento de até 50 milhões de dólares. Seguiram-se duas emissões de obrigações convertíveis: uma de 150 milhões de dólares com taxa de 8,5% ao ano, e outra de 360 milhões de dólares com taxa reduzida de 5,25%. Em novembro de 2025, a Bitdeer realizou uma captação maior, emitindo 400 milhões de dólares em obrigações convertíveis e 14,84 milhões de ações novas. Em fevereiro de 2026, voltou a captar 325 milhões de dólares em obrigações convertíveis e 4,35 milhões de ações, recomprando ainda dívida antiga de 135 milhões de dólares, com vencimento estendido até 2032. O total de financiamento ultrapassou os 1,4 mil milhões de dólares.

O que esse fluxo de capital trouxe? Até ao final de 2025, a receita anual do negócio de nuvem de IA/HPC da Bitdeer era de apenas 10 milhões de dólares, menos de 2% do total. Segundo os relatórios financeiros, os juros anuais pagos pela empresa já ultrapassam os 650 milhões de dólares (considerando uma taxa média de 5% sobre 1,3 mil milhões). Ou seja, os juros atuais só se mantêm através de emissão contínua de novas dívidas.

O número de GPUs disparou, mas a eficiência caiu. Em três meses, a quantidade de GPUs aumentou de 584 para 1792, triplicando, mas a utilização caiu de 87% para 41%. A razão principal é a instalação rápida demais, com GPUs como B200/GB200 ainda em fase de testes por clientes, sem gerar receita. É um típico modelo de “queimar dinheiro antes de lucrar”.

Quanto ao potencial de receita futura, analistas como Roth/MKM estimam de forma conservadora que, se a capacidade de HPC for totalmente aproveitada, a receita anual pode chegar a 850 milhões de dólares. Mas a gestão da Bitdeer assume uma postura mais agressiva, hipotetizando que 200 MW sejam totalmente dedicados à IA na nuvem, podendo gerar mais de 2 mil milhões de dólares por ano — três vezes a receita de mineração de 2025. Contudo, ambos os cenários dependem de três condições: conclusão pontual das construções, contratos de longo prazo com clientes de grande porte e GPU a funcionar a plena carga. Nenhuma dessas condições está atualmente satisfeita.

Em contraste com Riot, MARA e outros, que ainda mantêm reservas de Bitcoin, a Bitdeer já liquidou todas as suas posições — alegando que isso foi feito para obter liquidez para comprar ativos energéticos. Este movimento envia um sinal: a aposta da Bitdeer na valorização futura dos ativos energéticos supera a própria valorização do Bitcoin.

Janela de tempo e riscos pendentes

A estrutura de dívida da Bitdeer parece cuidadosamente planeada. Os três títulos convertíveis vencem em 2029, 2031 e 2032, aparentemente com um período de amortização estratégico. Quando o primeiro vencer, as operações em Tydal e Clarington já estarão em funcionamento; na segunda, espera-se que a receita de IA seja evidente; na terceira, o mercado dará a sua avaliação final. Cada vencimento é uma oportunidade de renegociação.

O mecanismo de obrigações convertíveis dá tempo a Wu Jihan, mas Wall Street não está convencida. A Keefe Bruyette reduziu o preço-alvo de 26,5 para 14 dólares, enquanto o preço atual ronda os 8 dólares. O sinal do mercado é claro: a história de transição precisa de gerar receitas concretas.

Este é o duplo desafio de Wu Jihan — o que mais precisa é de tempo, e o tempo é o seu maior inimigo. Uma trajetória otimista poderia ser assim:

No final de 2026, Tydal conclui a transformação, com o centro hidroelétrico de 164 MW a entrar em operação, e pedidos de clientes europeus a chegar. Em 2027, Clarington vence uma ação judicial, e o projeto de 570 MW em Ohio inicia obras, com grandes clientes americanos a seguir. Entre 2028 e 2029, as duas principais instalações operam a plena carga, com receitas na casa dos milhares de milhões, e analistas passam a valorizar a Bitdeer como uma infraestrutura de IA com prémio, em vez de uma mineradora descontada. Em 2029, as primeiras dívidas vencem, e os credores, ao verem o valor das ações e as perspetivas, provavelmente converterão dívida em ações, evitando pagamento em dinheiro.

Porém, há ameaças mais próximas. No mesmo parque industrial em Ohio, uma siderúrgica chamada American Heavy Plate Solutions assinou um contrato de arrendamento de 30 anos em 2018. Eles processam uma ação judicial contra a Bitdeer, alegando que a construção do centro de IA interfere na eletricidade, estradas, ferrovias e comunicações partilhadas, violando cláusulas restritivas. Pedem ao tribunal que proíba permanentemente a construção.

O projeto de Clarington representa 42% da capacidade de pipeline da Bitdeer. Se a ação judicial atrasar tudo por dois ou três anos, toda a agenda terá de ser revista. Com uma dívida de 1,3 mil milhões de dólares, o maior risco da Bitdeer não é a dívida em si, nem a variação do preço das ações, mas uma disputa judicial com uma siderúrgica em Ohio.

A mineração também não está livre de riscos. Em fevereiro de 2026, a dificuldade da rede Bitcoin subiu 14,7%, a maior subida única desde maio de 2021. Com a mesma eletricidade, menos Bitcoins são minerados. A margem bruta no quarto trimestre de 2025 caiu de 7,4% para 4,7%. Os lucros tradicionais de mineração estão a diminuir.

O pior cenário também é claro: uma disputa judicial de dois anos em Clarington, com paralisações na construção; atrasos em Tydal, com utilização de GPU a rondar os 41%; e, em 2029, ao vencimento das primeiras dívidas, a falta de caixa para pagar, levando a uma nova rodada de financiamento e à diluição de ações, elevando ainda mais o limiar de conversão. Ambos os caminhos são reais.

Apostas energéticas: uma nova era de arbitragem temporal

Na história da mineração, há uma tradição: acumular moedas é uma questão de fé, uma aposta no valor futuro do Bitcoin. Marathon tem 53.250, Riot 18.000, Strategy até 710.000. Quanto mais acumular, mais se acredita na valorização. A Bitdeer agora não acumula.

A explicação oficial é que vender Bitcoin permite obter liquidez para comprar ativos energéticos. E isso é verdade. Outros também seguem essa lógica: Riot usa 200 milhões de dólares em receitas de Bitcoin para expandir infraestruturas de IA, a Bitfarms está a abandonar a sua identidade de “empresa de Bitcoin”, e a MARA está a construir um ecossistema HPC próprio.

Porém, a lógica mais profunda é que, desde sempre, a indústria de mineração aposta na mesma coisa: que o preço de algo no futuro será maior do que o custo atual. Há dez anos, era o preço do Bitcoin. Agora, é a valorização de ativos energéticos, na esperança de que a procura de capacidade de IA exploda. O objeto mudou, mas a lógica de arbitragem temporal permanece.

Wu Jihan está a comprar uma posição — “quem ganhar, vai pagar a eletricidade”. Não é preciso adivinhar o caminho, basta controlar a entrada. A Amazon não aposta em qual empresa de internet vencerá, apenas aluga servidores a todos. A AT&T não se importa com o que dizes ao telefone, só se preocupa se estás a ligar. De vender produtos a vender serviços, e depois a cobrar alugueres, a evolução da indústria sempre seguiu uma única direção. A única diferença é se és tu a seguir esse caminho ou se és empurrado por outros.

Wu Jihan gastou dezenas de bilhões de dólares para comprar essa janela de tempo. Agora, espera que a receita de IA acompanhe o crescimento da dívida. Em comparação com Riot e MARA, que mantêm estratégias mais conservadoras de hodling, a Bitdeer opta por um caminho mais agressivo e de maior risco. A resposta virá em 2029.

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