“A Prisão da Mediocridade Financeira” alcançou lugares que eu jamais imaginei. Minha intenção era que o texto fosse uma análise do comportamento coletivo, uma estrutura para entender por que uma geração inteira está trocando carreiras por apostas de cassino. “Long degeneracy” era também, de maneira muito clara, uma tese sobre como se posicionar caso esse comportamento persista.
Muitos de vocês se sentiram compreendidos, como se alguém finalmente tivesse traduzido sua angústia e frustração, colocando em palavras tudo aquilo que vocês não conseguiam expressar.
Alguns de vocês encararam isso como um chamado: “Ok, a multidão está apostando, mas eu não preciso ser a multidão. Eu posso ser a casa.” Isso é excelente. O que mais desejo é que você esteja preparado para o que vem pela frente, para que possa se posicionar diante dessa transformação estrutural.
Para quem buscava algo mais prático, um guia sobre o que fazer e como caminhar rumo ao futuro, este texto é para você. Quero que saiba que há espaço no futuro para seus sonhos e ambições, e que o desespero não é a resposta.
Terminei o primeiro artigo com uma breve história sobre um amigo. Agora, começo este texto com uma história sobre mim.
Nasci em uma família extremamente pobre e problemática. Tive a sorte de viver em um país muito rico, então a pobreza não se traduziu em situações extremas. Ainda assim, era pobre o bastante para ter que escolher entre almoçar ou jantar, cercado por histórias de divórcio, drogas, abuso, noites sangrentas e dificuldades.
Desde pequeno, sentia que havia mais na vida do que simplesmente existir como um cão proverbial. Ver as pessoas à minha volta apenas sobrevivendo, sem realmente viver, era algo visceral; para mim, eram pessoas cinzentas em um mundo colorido, entregues ao desespero e à resignação diante da pobreza.
Isso me marcou profundamente. Por um tempo, cheguei a pensar que esse seria meu destino também.
Mas eu acreditava que era destinado a algo maior e refleti muito sobre como escapar. Eu ansiava por realização, como todos vocês. Algo em mim era inquieto, desesperado para realmente viver e não ser excluído de tudo o que poderia me dar alegria.
Planejei minha fuga e entendi, de modo geral, que precisava de uma base sólida para então comprar opções de compra (apostas com baixa probabilidade de grande retorno) para a vida que eu queria.
Construir essa base sólida não é simples quando se é pobre. Não se trata de uma autobiografia, então poupo os detalhes, mas envolveu:
Foi difícil, mas eu era obstinado. Nada poderia me parar, nem mesmo se tivesse que aprender programação à luz da lua, no meio da selva do Sudeste Asiático, com um caderno e um lápis. Eu pensava e tentava praticar estruturas de dados e algoritmos à mão, rodando-os só nos finais de semana. Era lento, doloroso e exaustivo. Mas meu desejo de realização era maior do que qualquer dor temporária.
Sem rodeios, meus esforços valeram a pena quando deixei o exército e conquistei uma vaga como pesquisador quantitativo em um dos maiores hedge funds do mundo.
Há quem pense que quants são grandes tomadores de risco, e alguns são mesmo. Mas, se for analisar bem, ser quant é um dos trabalhos de menor risco que existem. O alto salário é praticamente garantido, sem grandes riscos.
Essa foi minha base sólida, a partir da qual pude comprar as opções da minha vida. Algumas deram certo, e hoje estou em uma posição extremamente privilegiada, livre da mediocridade financeira.
Diferente das pessoas da minha infância, hoje eu vivo em cores. O que isso significa, na prática: posso viajar com o amor da minha vida para admirar os tetos da Capela Sistina na última primavera, e juntos apreciar o Davi pela primeira vez. Posso ir à academia por duas horas numa quarta-feira porque ninguém é dono do meu tempo. Quando vejo algo belo, não preciso calcular se posso me permitir aquela experiência.

Espero que você também tenha a oportunidade de vivenciar a arte dos grandes mestres.
Eu alcancei a velocidade de escape.
Desejo o mesmo para você.
Um mestre se aproxima de seu discípulo segurando um grande bastão. Ele diz ao aluno:
“Se disser que o bastão é real, vou te bater com ele. Se disser que o bastão não é real, vou te bater com ele. Se ficar em silêncio, vou te bater com ele.”
O aluno, então, estende a mão, pega o bastão e o quebra.
Este é o ponto. Meu ponto sempre será sobre protagonismo.
Quando você enxerga o jogo, pode quebrar o bastão.
Talvez você nem precise fugir.
Você não está passando fome. Não está lutando para sobreviver. Tem um teto. Tem pessoas que se importam com você. Tem espaço mental até para se perguntar “o que dá sentido à minha vida?” e “estou me realizando?”
Durante quase toda a história da humanidade, a principal ocupação de quase todos era simplesmente não morrer. Garantir calorias para chegar ao dia seguinte. Abrigar-se do clima. Evitar a violência. Nossos antepassados matariam para poder se preocupar com realização profissional em vez de fome.
Esses são problemas de luxo. Não digo isso para minimizar. Eles são reais e doem. Mas só tê-los já é uma vitória.
Existe espaço para a satisfação. Para olhar o que você tem e dizer: isso basta. Isso é bom.
Satisfação pode ser a escolha mais sábia que você faz.
Mas.
Se esse não é o seu caso. Se algo em você realmente busca mais, não porque o Instagram disse que você deveria querer, mas porque sente isso no fundo dos ossos, como eu sentia na infância, então precisamos conversar sobre como buscar isso de forma inteligente.
Minha fuga não foi aleatória.
Funciona assim: construa uma base, depois dê seus tiros.
A base tem dois pilares. O primeiro é uma educação duradoura. O segundo é uma renda sustentável. Só depois de ter ambos você conquista o direito de arriscar alto.
Você não controla como a vida vai se desenrolar. Não dá para se forçar a ganhar na loteria, mas você pode controlar sua capacidade de jogar e como reage ao que acontece. Em resumo, se você precisa tirar um 6 para escapar da mediocridade financeira, coloque-se numa situação em que possa jogar infinitas vezes até sair o 6.
A sorte acontece, e isso foge do nosso controle, mas podemos ampliar a superfície para que ela aconteça. Essa é a parte dos tiros.
A maioria faz o contrário. Vê as opções, as grandes apostas, os riscos assimétricos, e vai atrás disso sem ter base. É assim que se perde tudo. É assim que você acaba pior do que começou, amargo, quebrado e convencido de que está fadado ao fracasso.
O jogo pode ser manipulado. Mas ainda assim é possível vencer se você jogar direito.
Quando falo em educação, não me refiro necessariamente à escola. O que você aprende é muito mais importante do que onde aprende. MIT OCW é um recurso GRATUITO, acessível e sem discriminação. Se você está lendo este artigo no celular ou notebook, pode se educar.
Escola é apenas um meio. O que desejo é: desenvolva habilidades que se valorizem com o tempo e resistam à automação.
A pior resposta para “IA vai substituir empregos de escritório” é correr para o que parece seguro agora. A melhor resposta é perguntar: que competências ainda serão essenciais quando essa onda de automação passar?
Posso dizer o que EU ACHO que são:
Nenhuma dessas exige diploma. Todas demandam prática deliberada ao longo dos anos.
E aqui está o ponto: você tem mais ferramentas para desenvolver essas habilidades do que qualquer geração anterior. A IA, a mesma força que causa ansiedade quanto à substituição, também é um tutor absurdamente poderoso. Você pode aprender qualquer coisa, com qualquer pessoa, praticamente de graça, agora mesmo. As desculpas de vinte anos atrás já não existem.
O que resta é vontade de aprender e disciplina para continuar quando ficar difícil. Eu aprendi estruturas de dados à mão, no meio da selva. Você tem o Claude e toda a internet. Use-os.
“Basta conseguir um bom emprego” parece conselho de tio em almoço de família, logo antes de contar que comprou a casa por US$40.000.
Eu sei. Escrevi um texto inteiro sobre por que o caminho tradicional parece fechado.
Mas “mais difícil” não é “impossível”. E um bom emprego oferece algo que nenhuma aposta oferece: uma base estável para assumir riscos inteligentes.
Existem inúmeras oportunidades na internet para ganhar dinheiro de verdade, se você procurar e estiver disposto a se capacitar. Minha área é restrita, então só posso citar as que conheço:
Já desenhei alguns desses programas, então sei que há muito critério para que sejam competitivos para quem está disposto a se dedicar.
Ter uma base sustentável é fundamental. Quem se sai melhor no cassino não é quem chega desesperado com o dinheiro do aluguel. É quem chega com capital que pode perder, com habilidades para enxergar oportunidades, com horizonte de tempo que não exige ganhar AGORA.
Quando dei meus tiros, fiz isso a partir de uma posição de força. Eu tinha renda. Tinha habilidades para me reerguer se tudo desse errado. Isso me permitiu ser paciente. Esperar boas oportunidades em vez de agarrar qualquer uma ruim. Sobreviver a vários erros antes de finalmente acertar.
Não veja o emprego como teto. Ele é o chão a partir do qual tudo se torna possível.
Quando você tem uma educação que se valoriza e uma renda que sustenta, conquista o direito de apostar. Nesse ponto, o risco deixa de ser um salto no escuro e passa a ser uma aposta calculada, em que você entende as probabilidades e pode se dar ao luxo de errar.
É aqui que a tese original retorna.
Se você acredita que uma geração de jovens ansiosos por estabilidade financeira vai continuar colocando dinheiro em cassinos, prediction markets, memecoins, apostas esportivas, cursos e sonhos, você pode se posicionar para isso. Pode ser a plataforma. Pode ser dono do equity. Pode construir a infraestrutura. Pode lucrar com o fluxo.
Mas você precisa de recursos. Precisa de tempo. Precisa de runway como empreendedor. Precisa da capacidade de errar três vezes antes de acertar uma como especulador. Precisa de capital para que os acertos se multipliquem como investidor.
É isso que educação e renda oferecem.
Quero falar sobre como encarar tudo isso.
O objetivo não é trabalhar sem alegria por décadas e só então, no futuro, se permitir viver. Isso é uma prisão diferente.
O objetivo é construir com propósito. Sentir, todos os dias, que está avançando em direção a algo que importa para você. Encontrar sentido na construção, não apenas no destino.
Quando eu trabalhava em fast food, não era miserável. Eu tinha uma missão. Quando estudava algoritmos à mão, no escuro, não sofria. Eu estava construindo a versão de quem eu queria ser.
A dor era real, mas era uma dor com propósito, e dor com propósito é suportável de um jeito que o conforto vazio não é.
Se você vai perseguir ambição, faça isso com tudo o que tem. Use todas as ferramentas. Aprenda sem parar. Trabalhe mais do que imaginava possível. Mas faça porque a busca em si importa para você, não só porque está desesperado para escapar.
O desespero te faz agir sem pensar. Propósito é diferente, permite suportar o que quebraria alguém apenas fugindo.
Voltando ao koan.
O mestre apresenta uma escolha impossível. Toda opção leva à dor. O aluno parece preso. Mas só está preso se aceitar o enquadramento. No momento em que percebe que pode estender a mão e quebrar o bastão, a armadilha desaparece.
Você não está preso.
As condições econômicas são reais. Os caminhos fechados são reais. A ansiedade sobre IA, moradia e distribuição de riqueza, tudo real. Mas as condições não determinam sua resposta.
Você pode enxergar o jogo como ele é e ainda assim escolher jogá-lo bem.
Ou pode escolher a satisfação. Pode olhar o que tem, de verdade, e decidir que é suficiente.
O que não pode é ficar parado esperando apanhar. O que não pode é aceitar o enquadramento de que suas únicas opções são trabalhar sem esperança ou apostar desesperadamente.
Não seja um homem cinza em um mundo de cores. Eu não desejaria isso nem ao meu pior inimigo.
Para quem estiver disposto a ouvir. Para quem estiver disposto a manter a esperança.
Não se renda docilmente à noite que se aproxima.
Lute, lute contra o apagar da luz.
— Dylan Thomas
Eu escapei. Passei de escolher entre almoço e jantar a estar diante da Escola de Atenas com o amor da minha vida, sem fôlego.

Escola de Atenas
O caminho ainda está lá.
Construa sua base. Dê seus tiros. Quebre o bastão.
Long agency.





