A Câmara dos Lordes do Reino Unido raramente critica o banco central: regulamentação rigorosa pode tornar a estabilidade do Libra esterlina "inviável para os negócios"

O Comitê de Supervisão de Serviços Financeiros da Câmara dos Lordes do Reino Unido publicou um relatório importante, alertando diretamente contra o projeto de regulamentação de stablecoins do Banco da Inglaterra, apontando que algumas medidas podem tornar inviável comercialmente stablecoins denominadas em libras esterlinas, além de aprofundar o atraso do Reino Unido na competição global de stablecoins. Este relatório bipartidário reconhece que o Reino Unido já está "seriamente atrasado" em relação aos Estados Unidos e à União Europeia, e destaca que a falta de um quadro regulatório claro tem reprimido o desenvolvimento e o investimento em stablecoins.

O relatório apoia as diretrizes propostas pelo Banco da Inglaterra e pela Autoridade de Conduta Financeira (FCA), de que stablecoins fiduciárias devem manter reservas de alta qualidade em proporção 1:1, e que emissores de importância sistêmica devem possuir mecanismos de apoio do banco central. No entanto, o documento critica várias medidas específicas do rascunho de consulta do Banco da Inglaterra divulgado em novembro de 2025, afirmando que essas regras ultrapassam limites prudenciais razoáveis e podem, fundamentalmente, inviabilizar a viabilidade comercial de stablecoins em libras.

Quatro medidas controversas: 40% de depósitos sem juros, limite de posse, proibição de juros e dupla supervisão

O relatório da Câmara dos Lordes foca em quatro pontos controversos, sendo o mais discutido a exigência do Banco da Inglaterra de que emissores de importância sistêmica mantenham pelo menos 40% de suas reservas em contas sem juros no banco central. O comitê aponta que essa exigência já recebeu "críticas bastante severas" e que pode "impactar negativamente a lucratividade dos emissores de stablecoins e a competitividade internacional do mercado britânico". Em comparação, o quadro da UE sob o MiCA exige reservas de 30-60% em dinheiro (com possibilidade de juros), enquanto a lei GENIUS dos EUA permite que emissores invistam suas reservas em títulos do governo de curto prazo, gerando rendimento. A barreira de 40% de depósitos sem juros no Reino Unido é, claramente, a mais rigorosa entre as três.

Em segundo lugar, o limite temporário de posse para empresas e indivíduos também foi criticado pelo comitê. O Parlamento considera que essa medida "injustamente restringe o crescimento de stablecoins em libras" e que sua implementação prática será difícil.

O terceiro ponto controverso é a proibição de juros. O projeto do Banco da Inglaterra impede que stablecoins em libras de importância sistêmica paguem juros ou outros retornos aos detentores, alinhando-se ao MiCA da UE, mas contrastando com a lei GENIUS dos EUA, que ainda debate se exchanges e intermediários podem oferecer incentivos indiretos aos detentores de stablecoins. O comitê acredita que a combinação de regras rigorosas de reserva e a proibição de juros pode comprometer seriamente a viabilidade comercial de stablecoins em libras, especialmente na ausência de clareza sobre a permissão de recompensas não baseadas em juros.

Por fim, o comitê recomenda esclarecer a divisão de responsabilidades na dupla supervisão de emissores de importância sistêmica, entre o Banco da Inglaterra e a FCA, além de solicitar que o Ministério das Finanças, o banco central e a FCA mantenham o cronograma regulatório atual, evitando atrasos por debates políticos.

Competição internacional: comparação entre stablecoins em libras, euros e dólares

Este relatório evidencia as diferenças de abordagem entre as três maiores economias:

MiCA da UE, que entrará em vigor em 2024, é o primeiro quadro regulatório completo para stablecoins no mundo. Exige que emissores mantenham reservas de 30-60% em dinheiro, proíbe pagamento de juros, mas permite que emissores depositem dinheiro em contas remuneradas sob certas condições. Já há 10 emissores autorizados a lançar stablecoins na UE, mas a indústria critica os altos custos de conformidade, o que impede que stablecoins em euros ultrapassem certos limites de escala.

Lei GENIUS dos EUA adota uma abordagem mais relaxada: permite que entidades não bancárias emitam stablecoins (desde que obtenham licença de pagamento), proíbe pagamento de juros, mas permite que reservas sejam investidas em títulos do governo de curto prazo. Ainda há debates sobre o nível de supervisão para emissores não bancários e se exchanges podem oferecer retornos indiretos.

O Reino Unido, nesta comparação, apresenta uma postura "mais rigorosa", exigindo que parte das reservas seja depositada em contas do banco central sem juros, além de impor limites de posse. Isso contrasta com a promessa do governo de transformar o país em um hub global de criptomoedas.

Perspectiva asiática: lições e reflexões sobre regulamentação de stablecoins

A experiência do Reino Unido oferece referências valiosas para reguladores asiáticos. A Comissão de Mercado Financeiro de Taiwan está atualmente planejando uma lei de gestão de ativos virtuais, na qual a regulamentação de stablecoins é uma questão central. Se a exigência de 40% de depósitos sem juros do Reino Unido for considerada prejudicial ao desenvolvimento do setor, os reguladores asiáticos devem buscar um equilíbrio mais adequado na alocação de reservas e na política de juros.

A Autoridade Monetária de Singapura (MAS) atualmente regula stablecoins principalmente como depósitos tokenizados, preferindo que bancos emitam esses tokens em vez de emissores terceirizados. Hong Kong já estabeleceu um regime de supervisão para emissores de stablecoins, permitindo que instituições licenciadas emitam stablecoins fiduciárias, com reservas de 100% em ativos líquidos de alta qualidade (títulos do governo de curto prazo ou dinheiro), sem limites de depósitos sem juros ou de posse. As diferenças nas políticas de esses três locais (Reino Unido, Hong Kong e Cingapura) ilustram a ausência de consenso global sobre a regulamentação de stablecoins, com cada país explorando seu próprio caminho para encontrar um equilíbrio adequado.

A conclusão do relatório da Câmara dos Lordes levanta uma questão importante para todos os reguladores: o objetivo da regulamentação de stablecoins deve ser apenas proteger o sistema financeiro ou também garantir que essa indústria possa sobreviver? O documento afirma que o objetivo do Reino Unido deve ser "nutrir" (nurture), e não apenas "policiar" (police), a indústria de stablecoins em libras, permitindo que ela "competir com outras formas de pagamento no país", ao invés de ser "regulada até perder seu significado de mercado".

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