Investigação sobre o Quadro de Transparência de Tokens da Blockworks: De que forma a divulgação transparente impulsiona a reavaliação dos tokens?

Markets
Atualizado: 2026/06/22 07:21

Introdução

Em junho de 2025, a Blockworks lançou o Token Transparency Framework (TTF) com o objetivo de proporcionar aos protocolos um sistema padronizado de divulgação, facilitando a compreensão e comparação de diferentes projetos pelo mercado através de critérios consistentes. Cada submissão organiza informações essenciais relativas à estrutura do token, estrutura de mercado, arquitetura das entidades, divulgações financeiras, acordos do protocolo e outros detalhes fundamentais.

Fonte: X@Blockwork

Em termos simples, o TTF pretende funcionar como o equivalente, para a indústria cripto, do formulário S-1 de IPO, divulgando de forma sistemática as informações centrais que o mercado precisa conhecer acerca de um projeto.

Este é um passo significativo para ultrapassar a fase inicial de "far west" do mercado de tokens. Por um lado, os detentores de tokens, enquanto investidores, têm naturalmente direito a uma maior transparência. No passado, informações básicas como o historial da equipa fundadora ou as rondas de financiamento podiam ser divulgadas de forma seletiva pelos projetos, sem requisitos obrigatórios ou normas transversais ao setor.

Mais importante ainda, informações que afetam diretamente a potencial pressão vendedora — como alocações para listagem em CEX, acordos com market makers, períodos de bloqueio de tokens e distribuição — raramente eram divulgadas de forma padronizada.

Por outro lado, para projetos que pretendem genuinamente construir confiança junto dos investidores públicos, o mercado tem carecido de um padrão de divulgação de referência. Isso tem originado assimetrias de informação persistentes e lacunas de confiança entre projetos e investidores.

O TTF Tem Credibilidade Suficiente?

Para se tornar um padrão de divulgação transversal ao setor, um quadro normativo precisa de mais do que um design robusto — é fundamental construir credibilidade a longo prazo e obter reconhecimento alargado dos participantes do mercado.

Com esse objetivo, a Blockworks lançou a Transparency Alliance, um grupo industrial dedicado à promoção de divulgações padronizadas, à melhoria da integridade do mercado e ao impulso da adoção do TTF.

Fonte: Blockwork

Atualmente, o TTF disponibiliza dois tipos de submissão:

  • B-1 Filing: Documento de divulgação única para eventos de geração de tokens (TGE), equivalente digital ao S-1 para ativos digitais.

  • B-2 Filing: Documento de divulgação contínua para protocolos maduros, utilizado para atualizações regulares sobre informações-chave do projeto.

Importa salientar que tanto as submissões B-1 como B-2 seguem um princípio de "neutralidade de categoria". O quadro não pré-define nem determina o estatuto legal dos tokens em qualquer jurisdição; o foco reside na melhoria da transparência e da qualidade da divulgação.

A aliança integra participantes de CEX, market makers, curadores de cofres e diversas instituições financeiras. Em conjunto, reconhecem o TTF como referência central nos seus processos de due diligence e poderão, no futuro, contribuir com dados adicionais de divulgação e informações exclusivas.

Destaca-se a participação de CEX e market makers, sugerindo que, daqui em diante, detalhes relativos a taxas de listagem em CEX, alocações de tokens e condições dos market makers — como retenções, empréstimos de tokens e duração dos contratos — serão divulgados de forma mais aberta e padronizada.

Se estas divulgações se tornarem prática corrente, contribuirão para reduzir as barreiras de informação que os investidores de retalho têm enfrentado.

Atualmente, os quadros de divulgação B-1 e B-2 abrangem quatro categorias principais:

Informação sobre o Projeto e a Equipa
Inclui descrição do projeto, equipa principal e investidores, estrutura DAO, entidade fundadora, empresa de desenvolvimento e outros colaboradores associados.

Informação sobre Alocação de Tokens
Abrange distribuição inicial de tokens, calendários internos de desbloqueio, honorários de conselheiros, campanhas de marketing com KOL e situação de tokens não emitidos e carteiras operacionais.

Informação sobre Estrutura de Mercado
Inclui acordos com market makers, parcerias com CEX/DEX, mecanismos de liquidez e atividades de mercado relacionadas.

Recursos e Divulgação Financeira
Abrange vendas anteriores de tokens e angariação de fundos, fontes e utilização de fundos operacionais, incidentes de segurança históricos e demonstrações de resultados da fundação.

Qual o Estado Atual de Adoção e Divulgação do Token Transparency Framework?

Até ao momento, 45 projetos submeteram voluntariamente divulgações de tokens, mas apenas 14 forneceram divulgação completa em todos os indicadores, resultando numa taxa de conclusão global de cerca de 31%.

Analisando em detalhe, as submissões B-1 apresentam uma taxa de conclusão de 69%, bastante superior aos 16% das B-2. Existem razões estruturais para esta diferença: as B-2 centram-se em divulgações contínuas para tokens pós-ICO ou já emitidos. Após a emissão, os projetos têm menos incentivos diretos para manter elevados níveis de transparência. Além disso, a B-2 destina-se a protocolos maiores e mais maduros, tornando as divulgações mais complexas e aprofundadas.

Por oposição, as B-1 destinam-se sobretudo a tokens pré-lançamento ou ainda não emitidos. Nestes casos, as equipas estão mais motivadas para divulgar totalmente a informação, de modo a construir confiança junto do mercado, reduzir assimetrias de informação e criar uma base sólida para a futura emissão e descoberta de valor do token.

Fonte: Morpho, Maple Finance B-2 Filing

Entre os projetos com divulgações B-2 apenas parciais, destacam-se protocolos de referência como Morpho e Maple Finance. Estes projetos partilham uma característica comum: não divulgaram transações com insiders e partes relacionadas.

Este indicador exige que os projetos divulguem quaisquer transações relevantes com partes relacionadas ou insiders no prazo de 30 dias, incluindo o tipo de transação, identidades envolvidas e quantidade de tokens. O âmbito abrange também tokens emitidos ou alocados pela fundação.

A razão provável prende-se com a elevada sensibilidade destas transações. Estas divulgações implicam frequentemente movimentos de tokens entre fundadores, fundações, investidores iniciais, conselheiros, market makers ou parceiros do ecossistema. Uma vez tornadas públicas, podem suscitar preocupações sobre cash-outs de insiders, conflitos de interesses ou justiça na distribuição de tokens.

Em simultâneo, os projetos podem recear que tais divulgações exerçam pressão sobre os mercados secundários. Mesmo que as transações tenham fins legítimos, grandes transferências de tokens por insiders, partes relacionadas ou endereços da fundação podem ser interpretadas como potencial pressão vendedora, afetando o preço do token e a confiança do mercado.

Atualmente, o TTF mantém-se como quadro voluntário, sem imposição regulatória ou a nível de exchanges. Consequentemente, os projetos tendem a divulgar informação de menor sensibilidade e impacto de mercado, evitando conteúdos que possam afetar o preço do token, a confiança na governação ou interesses percecionados.

Lacunas nas Divulgações Financeiras

Entre os projetos com submissão B-2, cerca de 53% apresentam divulgações financeiras incompletas.

Isto significa frequentemente que, apesar de as carteiras de tesouraria estarem identificadas, os fluxos de receitas e despesas permanecem fragmentados ou incompletos. Raramente são fornecidas demonstrações de resultados padronizadas, dificultando aos investidores a avaliação sistemática das receitas do projeto, despesas operacionais, fundo de maneio e se o projeto é lucrativo ou apresenta prejuízo.

Por tipo de projeto, as lacunas de divulgação financeira são mais comuns em protocolos de Liquid Staking/Restaking e DEX/AMM.

No segmento de Liquid Staking/Restaking, estão cinco protocolos: Jito, Rocket Pool, Bifrost, Ether.fi e Stride. Em DEX/AMM, quatro: Aerodrome, Velodrome, Ekubo e Gains Network. Estas duas categorias representam, só por si, 9 dos 17 projetos com divulgação incompleta.

A ausência de divulgação financeira não implica necessariamente falta de transparência. Uma razão mais profunda pode ser o facto de os protocolos DeFi ainda não terem estabelecido normas de divulgação financeira amplamente aceites.

Nos protocolos de Liquid Staking/Restaking, as receitas podem incluir comissões de staking, ganhos MEV, taxas de restaking e rendimentos AVS, enquanto os custos abrangem operações de nós, incentivos a validadores, subsídios de liquidez, auditorias de segurança, remuneração da equipa e despesas de compliance.

A questão mais debatida é se as emissões de tokens devem ser consideradas despesa operacional. Caso sejam, muitos protocolos apresentariam prejuízos recorrentes; caso contrário, o desempenho financeiro pareceria significativamente melhor. Por conseguinte, as definições de receitas e despesas variam amplamente, dificultando a padronização das demonstrações de resultados.

Nos protocolos DEX/AMM, o problema é ainda mais estrutural. A maioria das taxas de negociação vai diretamente para os LP, não para a fundação ou entidade do protocolo, pelo que o valor económico gerado nem sempre corresponde ao rendimento efetivamente recebido.

Adicionalmente, muitos projetos DeFi adotam uma estrutura de governação separada (DAO, Fundação, DevCo), levantando a questão: "quem é a entidade reportante?" Os investidores pretendem conhecer a rentabilidade de todo o ecossistema do protocolo, mas os projetos frequentemente só conseguem divulgar as finanças da fundação, criando uma lacuna relevante.

Além disso, mesmo que um projeto publique a sua carteira de tesouraria, tal não equivale a transparência financeira total. Os dados on-chain mostram saldos, mas não remuneração de colaboradores, honorários de conselheiros, marketing, custos de market making, incentivos ao ecossistema ou outras despesas operacionais. A divulgação integral desta informação é um esforço de grande escala e pode expor a real situação financeira do projeto.

Por exemplo, alguns protocolos com milhares de milhões em TVL podem, após divulgação financeira completa, revelar receitas muito inferiores às despesas e dependência significativa de subsídios da tesouraria. Market making, aquisição de liquidez, incentivos a KOL e subsídios ao ecossistema são frequentemente as informações mais sensíveis e que os projetos relutam em divulgar.

Assim, a divulgação financeira B-2 incompleta pode não resultar apenas de falta de vontade, mas refletir a transição do DeFi da "transparência on-chain" para a "transparência financeira". Especialmente em Liquid Staking/Restaking e DEX/AMM, os protocolos gerem grandes ativos e fluxos de caixa, mas carecem de atribuição de receitas corporativas tradicional e de normas contabilísticas unificadas, tornando a divulgação financeira padronizada um dos maiores desafios.

Lacunas na Divulgação de Alocação de Tokens

No que respeita à alocação de tokens, cerca de 38% das submissões B-2 apresentam lacunas de divulgação. Os três itens mais frequentemente omissos são:

Vesting de Tokens de Insiders: Quatro protocolos — Jupiter, Metaplex, Raydium e Marinade — divulgaram esta informação apenas parcialmente. Obteram 2/3, indicando que forneceram calendários de vesting básicos, mas sem total verificabilidade on-chain, identificação de endereços ou completude.

Processo de Airdrop: Quatro protocolos — Ether.fi, Bifrost, dYdX e Marinade — obtiveram 1/2, o que significa que critérios de elegibilidade, lógica de alocação, triagem de elegibilidade ou resultados finais não foram totalmente documentados e tornados públicos.

Lançamentos Futuros & Tokens Relacionados: Três protocolos — Aerodrome, Velodrome e Horizen — obtiveram 1/2, refletindo divulgação incompleta sobre futuros lançamentos de tokens, tokens de protocolos relacionados, tokens de ecossistema ou eventuais designs de tokens secundários.

Estas lacunas não decorrem apenas de questões de execução, mas envolvem informação altamente sensível. O vesting de insiders obriga as equipas a divulgar calendários de desbloqueio para membros da equipa, investidores ou contribuintes iniciais. Sem mapeamento de endereços on-chain, o mercado não consegue avaliar com rigor a pressão vendedora futura; mas divulgações excessivamente detalhadas podem levar a uma precificação antecipada dessa pressão.

O processo de airdrop envolve elegibilidade dos utilizadores, justiça na alocação e critérios anti-sybil. Os projetos podem recear que transparência excessiva origine disputas na comunidade ou exponha os modelos de triagem de airdrop.

Quanto a Lançamentos Futuros & Tokens Relacionados, para projetos que já realizaram um TGE, as lacunas de divulgação significam frequentemente que a equipa não forneceu um relato completo sobre futuros lançamentos, tokens de protocolos relacionados, tokens de ecossistema ou outros arranjos associados. Esta informação impacta diretamente as expectativas de diluição, alterações de governação, incentivos ao ecossistema e potencial pressão vendedora, pelo que as equipas podem preferir manter alguma ambiguidade em vez de compromissos explícitos.

Equity vs. Tokens: Como Equilibrar os Mecanismos de Distribuição de Valor?

O debate central sobre compliance em torno dos tokens reside atualmente aqui: Se um projeto procura atribuir valor económico claro aos tokens através de buybacks, dividendos, partilha de receitas ou direitos de governação, arrisca-se a ser classificado como valor mobiliário e sujeito a escrutínio regulatório. Mas se enfraquecer deliberadamente o valor do token para evitar regulação, o token arrisca-se a tornar-se um mero sistema de pontos ou instrumento narrativo.

Na perspetiva do TTF, a sua função central é levar os projetos a clarificar a relação entre equity e tokens: Que valores, direitos e retornos pertencem ao equity da empresa e que funções, incentivos e mecanismos de governação são atribuídos aos tokens? As divulgações padronizadas ajudam a reduzir a incerteza para o mercado e para os reguladores.

Entre as 32 submissões B-1, emergem três modelos principais para a relação equity-token:

Modelo 1: Sem Entidade de Equity (10 Protocolos)

Exemplos: Morpho, dYdX, Aerodrome, Gearbox, etc.

Estes protocolos não possuem uma entidade de equity separada que acumule valor; todo o valor do protocolo flui diretamente para a DAO e detentores de tokens. Não existem interesses acionistas separados, eliminando conflitos entre equity e tokens. Por exemplo, a Morpho Labs atua como entidade de desenvolvimento, mas declarou publicamente que os tokens MORPHO são o seu único ativo, funcionando na prática como uma estrutura DAO pura.

Modelo 2: Receita Atribuída aos Tokens, Não ao Equity (9 Protocolos)

Exemplos: Raydium, Jito, Rocket Pool, Marinade, etc.

Estes protocolos podem ter uma empresa de desenvolvimento ou fundação, mas as receitas do protocolo são direcionadas diretamente para os detentores de tokens, via buybacks, recompensas de staking ou partilha de taxas, e não para os acionistas. Neste modelo, a entidade de equity gere o desenvolvimento e operações, enquanto os tokens capturam o valor económico ao nível do protocolo.

Modelo 3: Estrutura Dual, Separação de Direitos (13 Protocolos)

Exemplos: Jupiter, ZKsync, WalletConnect, Maple Finance, Ether.fi, etc.

Este é o modelo mais comum — e controverso. A empresa de desenvolvimento (camada de equity) e a DAO (camada de tokens) coexistem. Os acionistas detêm direitos económicos e de voto ao nível da empresa, enquanto os detentores de tokens têm direitos de governação no protocolo e relacionados com a rede.

A principal controvérsia reside aqui: Quando o tráfego, a marca e a confiança dos utilizadores são co-criados pela rede de tokens, que receitas pertencem à empresa e quais à DAO e detentores de tokens?

Aave é um caso paradigmático. Em dezembro de 2025, após a integração do CoW Swap no frontend oficial pela Aave Labs (app.aave.com), a comunidade descobriu que algumas taxas de swap não estavam a ser canalizadas para o tesouro da DAO Aave, mas sim para contas externas ou associadas à Labs.(1)

A Aave Labs argumentou que, sendo o frontend desenvolvido, operado e mantido pela empresa, as receitas do frontend pertenciam à empresa. Representantes da DAO e detentores de tokens contrapuseram que o tráfego, a marca e a confiança dos utilizadores advêm da rede do protocolo, pelo que as receitas associadas não deveriam contornar a DAO. Este episódio expôs o conflito central da estrutura dual:

Evidenciou a tensão fundamental: O valor do protocolo é co-criado pela rede de tokens, mas o acesso dos utilizadores, operações do produto e comercialização são controlados pela empresa de desenvolvimento. Ambas as partes podem ter visões distintas sobre a atribuição de valor.

Acordos com Market Makers e Taxas de Listagem em Exchanges

Outro ponto crucial de divulgação são os acordos com market makers e taxas de listagem em exchanges, pois afetam diretamente o fornecimento circulante do token, a pressão vendedora potencial e a descoberta de preço após o lançamento.

Comparativamente aos calendários de desbloqueio divulgados publicamente na tokenomics, os empréstimos de tokens a market makers, opções, incentivos de liquidez e acordos de listagem são frequentemente ocultados em contratos off-chain. No entanto, estes termos determinam quantos tokens estão efetivamente disponíveis para venda, os incentivos económicos para market makers em diferentes níveis de preço e a pressão vendedora estrutural no mercado.

Assim, esta informação explica frequentemente melhor o comportamento do preço pós-listagem do que o fornecimento circulante nominal ou os calendários de desbloqueio. É fundamental para compreender a estrutura de mercado de um token e a sua dinâmica real de oferta.

Entre os 32 projetos com submissão B-2, 84% (27 projetos) divulgaram três informações essenciais: nomes de market makers e exchanges centralizadas, rácios de alocação de tokens por instituição e duração ou termo do contrato.

Com base nas divulgações, os acordos de market makers e exchanges agrupam-se em três modelos principais:

Modelo 1: Empréstimo de Tokens

O mais comum, utilizado por cerca de 19 projetos. A fundação empresta um número fixo de tokens aos market makers, que fornecem liquidez durante um período definido e devolvem os tokens no final. Por exemplo, a peaq empresta tokens PEAQ à GSR, Keyrock e Amber; a Jito emprestou 2 milhões de JTO à Amber, Auros e GSR; a Maple Finance agregou cerca de 2% do total de SYRUP para várias instituições.

Modelo 2: Retenção em Numerário

Utilizado pela Aerodrome e Velodrome. A fundação paga aos market makers em numerário ou stablecoins pelos serviços, sem transferir tokens. Por exemplo, a Aerodrome celebrou um contrato anual renovável com a Flowdesk para market making, mas a Flowdesk não recebeu nem tomou emprestado quaisquer tokens AERO.

Modelo 3: Declaração de "Sem Acordo"

Alguns projetos declaram explicitamente não possuir acordos com market makers ou CEX, como Gearbox, dYdX, Gains Network, Ekubo e Raydium. Tipicamente, são protocolos nativos DEX ou DAOs que gerem liquidez diretamente. Mesmo sem acordo, afirmar claramente "não existe tal acordo" é, em si, uma divulgação de elevada qualidade.

Entre os market makers, a GSR é a mais envolvida, participando em 7 projetos; a Amber Group surge 5 vezes e a Keyrock 4 vezes. No geral, GSR, Amber e Keyrock são os prestadores de serviços de market making mais comuns na amostra B-2.

Quanto a listagens em CEX, a Coinbase é a mais referida, com 9 menções — muito à frente da Binance, KuCoin, Bybit e outras. Para projetos que procuram acesso a investidores institucionais e liquidez no mercado dos EUA, uma listagem na Coinbase continua a ser um dos sinais mais relevantes.

Alocação de Tokens a Market Makers: Protocolos Menores Suportam Custos Mais Elevados

Na amostra, os empréstimos de tokens a market makers variam entre 0,20% (Jito) e 3,70% (Cloud) do total da oferta — uma diferença de 18 vezes. A mediana situa-se em 1,10%, podendo servir de referência para as necessidades típicas de capital de trabalho dos market makers.

Tendência principal: Quanto maior e mais líquido o protocolo, menor a percentagem de tokens que precisa de emprestar. Jito (cerca de 571 milhões $ FDV) e Jupiter (cerca de 1 mil milhões $ FDV) emprestaram apenas 0,20% e 0,41% do total, respetivamente, dado que os volumes de negociação já proporcionam aos market makers receitas e oportunidades suficientes. Em contraste, protocolos mais pequenos como Cloud, Layer3 e Turtle têm de emprestar uma proporção mais elevada para tornar o market making atrativo.

WalletConnect: Um dos Custos de Infraestrutura de Liquidez Mais Elevados

A WalletConnect destaca-se na amostra. Para além de alocar cerca de 2,5% do total de tokens a market makers, a submissão B-2 revelou alocações para listagens em CEX:

  • Binance: 50 milhões WCT (cerca de 5% do total)

  • OKX: 10 milhões WCT (cerca de 1% do total)

Incluindo as alocações a market makers, a WalletConnect despendeu cerca de 8,5% do total de tokens para garantir liquidez e listagens em exchanges.

Mais relevante ainda, a WalletConnect é o único protocolo na amostra a divulgar explicitamente os acordos de alocação de tokens para exchanges. Esta informação tem sido historicamente mantida em contratos off-chain e a sua divulgação permite ao mercado quantificar o custo real que os projetos suportam para listagens e apoio à liquidez. Responde também diretamente à questão: "Quanto custa realmente listar um token numa exchange?"

Divulgação Completa Corresponde a Maior FDV ou TVL?

Analisámos ainda a relação entre o número de lacunas de divulgação e o FDV/TVL para aferir se maior transparência se traduz em avaliações ou escala de ativos superiores. Em teoria, protocolos mais robustos e de maior dimensão deveriam estar mais aptos a fornecer divulgações; por outro lado, divulgações mais completas poderiam aumentar a confiança dos investidores, elevando o FDV ou TVL.

Contudo, os dados não corroboram esta hipótese.

Lacunas vs. FDV

Não existe relação significativa entre o número de lacunas e o FDV (r = +0,29, n = 43). A correlação é fraca e a amostra limitada. Não há evidência de que "protocolos maiores divulgam melhor" ou o inverso.

Mais importante ainda, os dados não mostram a correlação negativa esperada. Se a transparência já estivesse refletida nos preços, projetos com FDV elevado deveriam apresentar menos lacunas. Na realidade, FDV e qualidade de divulgação são largamente independentes. Outliers como Morpho (cerca de 1,97 mil milhões $ FDV, 5 lacunas) podem inflacionar a correlação. Excluindo estes casos, a relação tenderia para zero.

Jupiter (cerca de 1,03 mil milhões $ FDV, 1 lacuna) e Jito (cerca de 571 milhões $ FDV, 1 lacuna) demonstram que protocolos de grande dimensão podem alcançar elevada qualidade de divulgação; Morpho evidencia que um FDV elevado não garante transparência. A qualidade da divulgação parece ser uma escolha de governação, não uma função da escala.

Lacunas vs. TVL

Também não se verifica relação significativa entre TVL e qualidade da divulgação (r = +0,28, n = 23). Com apenas 23 projetos com dados de TVL disponíveis, esta correlação não é estatisticamente robusta; um coeficiente tão baixo pode resultar de flutuações aleatórias ou de alguns outliers. Morpho (cerca de 6 mil milhões $ TVL, 5 lacunas) e Spark (cerca de 9,1 mil milhões $ TVL, 2 lacunas) podem, por si só, elevar a correlação.

Os dados atuais não permitem concluir que o TVL influencia o comportamento de divulgação, positiva ou negativamente. A principal conclusão: TVL elevado não equivale a maior transparência.

Meteora (cerca de 835 milhões $ TVL, 0 lacunas) e Everclear (cerca de 140 milhões $ TVL, 0 lacunas) mostram que a divulgação total é possível em escala; Morpho e Spark demonstram que gerir grandes fundos de utilizadores não garante transparência.

Assim, os dados não sustentam a tese de que "divulgação mais completa conduz a maior FDV ou TVL".

Conclusão mais rigorosa: Na amostra atual, dimensão de mercado e qualidade da divulgação são amplamente independentes; a transparência ainda não foi consistentemente valorizada como prémio de avaliação ou TVL.

Conclusão e Perspetivas

O Token Transparency Framework ainda se encontra numa fase inicial de adoção. Apenas 45 projetos participaram até agora — uma fração ínfima do universo de tokens no mercado cripto. Mas o TTF está a seguir o caminho certo: tornar os tokens mais transparentes enquanto ativos, reduzir zonas de opacidade informativa e, sobretudo, diminuir a desvantagem informativa dos investidores de retalho relativamente à emissão, circulação e distribuição de valor dos tokens.

Equity e Tokens

Uma das contribuições mais relevantes do TTF é levar os projetos a clarificar a relação entre equity e tokens.

No passado, muitos protocolos evitavam mecanismos de partilha de lucros, divisão de receitas ou captura explícita de valor para não verem os tokens classificados como valores mobiliários, originando uma desconexão entre o valor do token e o valor do protocolo. À medida que a abordagem regulatória evolui — como ilustra o CLARITY Act — o debate no mercado centra-se numa avaliação mais holística da descentralização da rede, qualidade da governação, divulgação e direitos dos detentores de tokens.

Projetos como Morpho já declararam os tokens como o seu único ativo central, em vez de manterem propostas de valor paralelas para equity e tokens. Isto pode reabrir o debate sobre captura de valor pelos tokens e o conceito de "token como ativo".

Empréstimos a Market Makers e Listagens em CEX

Outra área-chave de divulgação são os empréstimos a market makers e os acordos de listagem em CEX.

Historicamente, estes acordos eram ocultados em contratos off-chain. Os investidores de retalho apenas viam vagas "alocações de liquidez" ou "alocações a market makers" na tokenomics, sem detalhes sobre montantes emprestados, condições, preços de exercício, mecanismos de reembolso ou o custo real das listagens.

Esta informação afeta diretamente o fornecimento circulante efetivo, a pressão vendedora estrutural e a descoberta de preço após a listagem. É também uma das razões pelas quais muitos projetos e investidores de retalho enfrentam pressão sobre o preço após o TGE. Ao padronizar estas divulgações, o TTF está a transformar o universo opaco dos empréstimos a market makers e taxas de listagem em variáveis abertas que o mercado pode analisar e precificar.

Assim, o TTF não é apenas "mais um documento de divulgação" — está a construir uma infraestrutura de informação, ao nível dos mercados de capitais, para os tokens. Preenche lacunas históricas nas divulgações sobre estrutura das entidades, alocação de tokens, market making, relações com exchanges, fluxos de fundos e direitos de governação.

B-1 vs. S-1 Tradicional: A Lacuna de Divulgação

Naturalmente, o TTF ainda difere significativamente do S-1 em termos de rigor de divulgação e estatuto legal.

Primeiro, as divulgações financeiras.

Os S-1 costumam ter centenas de páginas, com demonstrações financeiras auditadas, demonstrações de resultados, balanços, fluxos de caixa, remuneração de executivos, estrutura acionista e fatores de risco detalhados. Em contraste, o B-1 permanece muito mais leve e não exige demonstrações financeiras completas. Por exemplo, a divulgação financeira da Meteora assemelha-se mais a uma declaração breve do que ao nível de reporte auditado exigido a empresas cotadas.

Segundo, o enquadramento legal. O S-1 é um documento de registo legal apresentado à SEC, com responsabilidade jurídica clara. Divulgações falsas ou enganosas podem originar ações da SEC, processos de acionistas ou alegações de fraude de valores mobiliários.

O B-1, por seu lado, é uma divulgação voluntária ao abrigo do padrão de transparência TTF/Blockworks. Não é um documento regulatório estatutário nem é revisto pela SEC. O TTF deve ser entendido como uma norma de autorregulação cripto-nativa, não um regime tradicional de registo de valores mobiliários.

No futuro, para que quadros como o TTF tenham verdadeiro impacto no mercado, será necessária a sua integração na infraestrutura de negociação e análise. Por exemplo, as CEX poderiam exigir submissões B-1/B-2 antes de listar tokens, ou pelo menos torná-las parte do processo de análise e das páginas de informação ao investidor. As plataformas de dados poderiam, à semelhança do que a Binance faz com a Token Terminal, Token Unlocks e RootData, combinar as divulgações do TTF com informações sobre angariação de fundos, historial da equipa, desbloqueios de tokens e dados on-chain.

A longo prazo, o B-1 poderá até tornar-se um padrão quase obrigatório para listagens em exchanges mainstream, garantindo que, antes de negociar um token, o mercado possa pelo menos consultar a estrutura da entidade subjacente, a atribuição de valor e os mecanismos de liquidez.

Apêndice

(1) https://www.coindesk.com/tech/2025/12/15/aave-dao-pushes-back-as-interface-fees-shift-away-from-treasury

https://blockworks.com/token-transparency

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